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ESPECIAL: CineBR – Diretores Nacionais – Parte 02

Os diretores dos anos dourados, da retomada e de clássicos que permanecem vivos em nossas memórias até hoje.

Bye Bye Brasil (Cacá Diegues, 1980) | Em cena: Salomé (Betty Faria), Andorinha (Príncipe Nabor)
 

CineBR - Diretores Brasileiros é uma série especial de publicações do Portal Dossiê etc, escrita por Cleber Eldridge, com edição de Antonio Pedro, sobre os diretores que pavimentaram a estrada do cinema nacional.


Mais do que um conteúdo especial, essa série é mais um resultado do compromisso que a Revista Dossiê etc tem de promover a cultura nacional. Esperamos que goste de mais esse resultado.

 

O “Cinema Novo” estava esgotado, chegava ao fim junto com a década de 70, assim os diretores com todos os problemas que o Brasil tinha na época especialmente a ditadura e a censura militar, precisavam de alguma forma continuar com o cinema, surgiu então uma gama de diretores com diferentes estilos, dentre eles Cacá Diegues, um dos mais prolíferos diretores do Brasil – e isso não quer dizer que ele seja bom –, Diegues fez inúmeros filmes, sua obra propõe um visão do Brasil pós-cangaço — ou pós-Glauber Rocha —, que foi um movimento focado na figura do homem cangaceiro como uma referência nas denúncias contra a desigualdade; dentre os muitos trabalhos de Diegues, Bye Bye Brasil (1979) continua sendo seu melhor trabalho, uma obra plena de humor e música, autenticamente tropical. Diegues filmou muito, mas a grande maioria de suas obras foram infelizes, Orfeu (1999) foi uma triste e desnecessária refilmagem do vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro Orfeu Negro (Marcel Camus,1959), Diegues sempre focou em personagens já consolidados como Tieta, em Tieta do Agreste (1996) e Xica da Silva (1976), mas nunca atingiu o sucesso.

O cinema tomou novos caminhos e as comédias começaram a pipocar, Bruno Barreto aproveitou essa onda e fez seu clássico Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976). Barreto é de uma longa linhagem de produtores e executivos do cinema brasileiros como seus país, Luiz Carlos e Lucy Barreto, assim desde sua infância ele esteve em contato com o cinema. Ele se tornou um fenômeno quando dirigiu esse sucesso contemporâneo, foi um dos maiores sucessos comerciais do Brasil, obra com igual sucesso na circulação internacional, algo não tão comum para nosso cinema. Já nos anos 90, O Que é isso, Companheiro? (1997) foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, sua carreira parece ter estagnado, Barreto tentou carreira nos Estados Unidos com Voando Alto (2003), mas foi um fiasco, para se ter noção ele acabou dirigindo Crô: O Filme (2013).


Seu irmão Fábio Barreto também ingressou no cinema, mas somente na década de 80, sem o mesmo êxito, O Quatrilho (1995) foi sua principal obra especialmente porque foi o primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, feito repetido por Bruno no ano seguinte com O Que é Isso, Companheiro? – essa família nasceu para fazer cinema, atualmente a dupla ainda trabalha com cinema, mas sem o mesmo fervor, já que os tempos mudaram e o gosto do público também.

O Quatrilho (Fábio Barreto, 1995) | Em cena: Angelo Gardone (Alexandre Paternost), Teresa (Patrícia Pillar), Pierina (Glória Pires) e Massimo (Bruno Campos)

O nome Arnaldo Jabor lhe é familiar, não é? O comentarista da Globo foi um dos mais polêmicos nomes do cinema nacional, ele que outrora era crítico severo da burguesia brasileira, pôs-se à margem do “Cinema Novo” que ele qualificou de “masturbatório”, já que para seu gosto, o cinema novo não era comercial e servia apenas para satisfazer o ego dos diretores. Um ledo engano, já que o cinema novo ficou marcado no Brasil, como o período com bilheterias que concorriam muito bem contra filmes de grande sucesso como musicais e comédias internacionais da época. O filme mais popular de Jabor foi Toda Nudez Será Castigada (1973) que foi proibido no auge do sucesso por conta da censura.

Já nosso querido Hector Babenco, também foi um dos nomes que explodiu com a retomada do cinema nacional, depois de ser assistente de direção de grandes nomes do cinema lá fora, entre eles Sérgio Corbucci e Marcel Camus, o argentino de nascimento se instalou no Brasil para fazer história no nosso cinema, seu grande Pixote – A Lei do Mais Fraco(1981) foi marcante e é lembrado até hoje como um dos melhores filmes da história e O Beijo da Mulher-Aranha (1984) foi determinante para o diretor ser celebrado no mundo inteiro, o filme situado em uma prisão da America Latina narra a história de um presidiário homossexual que conta todas as noites a um preso político com quem divide cela, um filme saído de sua imaginação, um filme que ele simplesmente inventa para ter assunto. O sucesso do filme foi tanto que Babenco foi indicado ao Oscar de melhor filme, melhor direção (Babenco), melhor roteiro (Leonard Schrader) e ainda abocanhou o prêmio de melhor ator (William Hurt) – nos anos que se seguiram, Babenco fez obras mais longas e muito ambiciosas, como Brincando nos Campos do Senhor (1991) que foi um fracasso de crítica e público, mas ele voltaria a dirigir e recuperaria o prestigio nos anos 2000, especialmente com Carandiru (2003).

O Beijo da Mulher-Aranha (Hector Babenco, 1984) Em cena: Luis Molina (William Hurt)

Os anos 80 ainda trouxeram obras de diretores considerados “monstros” – Nelson Pereira do Santos e Glauber Rocha continuavam dirigindo, mesmo sem êxito ou sucesso de bilheterias, Memórias do Cárcere (1984) foi um dos últimos bons trabalhos do diretor – os nomes continuavam pipocando, foi quando repentinamente um curta-metragem abalou os alicerces do nosso cinema, era Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado que só voltaria dirigir longas-metragens nos anos 2000.

Carlos Reichenbach foi um dos grandes nomes do nosso cinema, originário do cinema marginal, com passagem pela Boca do Lixo em São Paulo – outro movimento cinematográfico, mais focado em filmes filmados em São Paulo e inspirados na Novelle Vague francesa, filmes que exploram a cidade e possuem baixo orçamento, mais conhecidos como “Filme B”, Reichenbach sempre colocou algo maior que a palavra “sacanagem” – fã do cinema japonês, o diretor foi uma grande apreciador da cultura cinematográfica, ele venceu preconceitos contra produções daquela época e ganhou reconhecimento dos críticos, especialmente depois que o Festival de Gramado abriu as portas para a exibição de Extremos do Prazer (1984), um filme polêmico e com alto teor sexual. Seus filmes logo ganharam o mundo e muitos deles selecionados para festivais mundo a fora, seu melhor trabalho continua sendo, sem sombra de dúvidas, Filme Demência (1986).

Assalto ao Trem Pagador (João Batista de Andrade, 1962) | Em cena: Tião Medonho (Eliezer Gomes), Delegado (Jorge Dória)

O Paulista João Batista de Andrade também foi um dos nomes daquela época, sempre mesclando entre ficção e documentários, curtas e longa, televisão e cinema, seu filme mais popular foi O Homem que Virou Suco (1979), que conta a história de um poeta nordestino nas ruas paulistanas, ganhou vários prêmios e uma honraria no Festival de Moscou. Roberto Faria que teve início de carreira com pornochanchadas carnavalescas, foi um dos melhores diretores que o Brasil já teve, em filmes como Cidade Ameaçada e Assalto ao Trem Pagador (1962), com o golpe de 1964, Faria mudou o rumo de sua carreira, ficando a serviço do cantor Roberto Carlos com obras de entretenimentos, especialmente dirigindo seus videoclipes, antes de voltar seu foco para o cinema. O filme Pra Frente, Brasil (1983) levantou polêmicas e a ira da censura, que manteve a obra proibida durante um ano, o filme em questão mostrava um ativista político, um cidadão de classe média que é preso e torturado por agentes federais durante a Copa do Mundo de 1970, obviamente a censura da época não queria que aquilo fosse a publico, por isso a censura.


As conquistas dos anos 90


Os anos 90 foram ainda mais ‘diferentes’, uma década de consagração, de 3 indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro, feito que ainda não se repetiu.


Walter Salles, o diretor favorito da pessoa que vos fala, fez um dos filmes mais populares da década, Central do Brasil (1998) foi nossa última participação no Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro; Cidade de Deus, de Fernando Meirelles (2002) receberia quatro indicações mais tarde, mas ficaria fora da briga de melhor filme estrangeiro – esse foi só um dos filmes de Salles que ganharam as estradas da vida, seus dois primeiros longas percorreram caminhos que não se limitaram as terras brasileiras como Central do Brasil. Em A Grande Arte (1991) Salles, que tinha como base um história de Rubem Fonseca, levou seus personagens até a Bolívia e no maravilhoso Terra Estrangeira(1995) fez uma ponte entre São Paulo e Lisboa.

O diretor Paulo C. Saraceni foi um dos mais festejados realizadores do Brasil, mas nunca conseguiu atrair grande público aos seus filmes, ao contrário de Nelson P. Santos e Joaquim P. Andrade, talvez seja o mais desconhecido – ou menos visto – criador da nova estética narrativa, que focava mais tempo do que o normal nas belas paisagens. Ousado, ele dirigiu adaptações clássicas como Capitu (1.967). Nos anos 90, seu O Viajante (1998) foi um dos grandes do ano, mas o sucesso da década é, obviamente, do diretor Guel Arraes e sua comédia arrasta quarteirão O Auto da Compadecida (1999). Arraes viria dirigir outros filmes na década seguinte como Lisbela e o Prisionero (2003) também com Selton Melo e Romance (2008) com Wagner Moura, mas a adaptação feita para a obra de Ariano Suassuna em 1.999 é a obra de sua vida.

Lisbela e o Prisionero (Guel Arraes, 2003) | Em cena: Lisbela (Débora Falabella) e Leléu (Selton mello)

Eduardo Coutinho


O maior e melhor documentarista do nosso país e, talvez, um dos melhores diretores que já passou por essa terra, merece um espaço especial aqui nesse especial. Coutinho fez de tudo no cinema, foi roteirista, diretor de produção, curta-metragista, crítico e diretor de documentários, especialmente para televisão, mas se encontrou na cadeira de diretor de cinema. Cabra Marcado Para Morrer (1984) foi o filme que lhe deu o mundo, teve as filmagens iniciadas em 1964, quando a equipe teve que dissolver-se por conta da tomada militar. Com a retomada, duas décadas depois, o semidocumentário – metade ficção e metade documentário – se tornou um dos mais importantes da nossa história, premiado aqui e no mundo. Algumas das conquistas foram o Prêmio da Crítica, em Berlim, prêmio Hours Concours, em Gramado e o Grande Prêmio Cine Realidade em Paris, na França. Coutinho, não contente em passar por todas as funções do cinema, abordou todos os temas em seus documentários, desde Santo Forte (1999) abordando as variações religiosas no Brasil vencedor do prêmio de melhor filme e melhor roteiro no Festival de Gramado, até Boca de Lixo (1993), mostrando as pessoas em situações precárias nas grandes cidades.

Eduardo Coutinho (Foto: Guillermo Giansanti / Divulgação)

Os filmes que se seguiram trilharam um caminho que só ele conhecia, Coutinho se tornou um mestre em filmar suas conversas, a sua obra-prima, Edifício Master (2003), mostrava o cotidiano de um grupo de pessoas em um edifício comum em Copacabana e, esse poderoso retrato de pessoas comuns, ganhou o Kikito de melhor documentário em Gramado e o prêmio da Critica na Mostra Internacional de São Paulo, um dos filmes mais emocionantes que já vi. Já em 2007 Coutinho volta em Jogo de Cena (2007), conversando com atores no palco .

Os anos dourados, que foram os anos pós Ditadura Militar, nos anos 80 onde se tinha mais recursos financeiros e mais retorno de público foi isso e com a retomada (1995) tivemos filmes que se tornaram clássicos, outros que arrastaram milhões aos cinemas e nossa trinca de indicações ao Oscar. Na próxima semana falaremos das mulheres no nosso cinema e apenas delas, até lá.