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A Coisa Está Russa: o furo está furado

Mais especialistas e menos generalistas. A guerra precisa ser lida com mais seriedade e menos maniqueísmo.


Vladimir Putin, o autocrata russo, ignorar reiterados apelos por paz e parece dobrar a aposta a cada sanção imposta pela economia mundial. | Reprodução: Getty Images

Desde sua criação, o portal Revista Dossiê etc se propõe a ser um portal de informações, mas não necessariamente de jornalismo, isso porque não podemos dizer que fazemos jornalismo, porque o bom jornalismo custa caro e anda lento, quando o jornalismo tenta acompanhar o calor das redes sociais, o que vemos é a fofoca corporativa, não jornalismo, por isso, preferimos, utilizando a apuração de jornalistas e pesquisadores sérios, criar conteúdo que se aprofunda nesses temas mais espinhosos e curiosos.


Apesar de nesses 10 meses de existência, uma vez, por acaso, a Dossiê ter dado um furo de reportagem, ou seja, uma notícia em primeira mão, é óbvio e transparente que foi um acidente, porque na Dossiê partimos da premissa que a notícia em primeira mão, a apuração detalhada e fiel aos fatos é coisa para profissionais, talvez por isso esse editorial seja publicado mais de dez dias após o início da guerra.


Em meio a batalha de versões criada no rastro do desespero dos folhetins por notícias exclusivas, os tais furos de reportagem se tornam reportagens furadas, algumas com direito a imagens de jogos de vídeo game e debate sem debate, já que todos que participam têm a mesma opinião, nenhuma baseada em fatos históricos, apenas em paixões, desejos e implicâncias pessoais.


Condenar a guerra? Torcer pela paz, pela democracia, pela saúde dos povos. Será que é útil um programa com uma dúzia de comentaristas repetindo e ressoando entre si a obviedade do repúdio aos comportamentos autoritários de um valentão com mísseis nucleares na cinta? Isso é um falso debate, ninguém relevante pensa o contrário disso, ninguém acha que a guerra é certa, ou que não haja crime nessa guerra como há em todas as guerras.


É de se admirar programas autorrotulados, jornalísticos, se descuidem e escalem para a banalidade dos comentários genéricos, mais jornalistas generalistas do que especialistas em relações internacionais, diplomatas, ex-ministros, professores, historiadores etc.


Em tempos em que o sensacionalismo rouba o protagonismo dos fatos e contextos, até o trabalho da Dossiê etc, que não é jornalístico, e seus colunistas, prontamente dispostos a aprofundar a atenção sobre assuntos que lhes são íntimos, fica prejudicado pela ausência de certeza sobre a precisão das notícias. Como comentar a incerteza? Como comentar, argumentar, explicar e se aprofundar no vácuo de informações fiáveis? Assim, torna-se essencial aguardar o entendimento de quem assiste aos fatos com lupas de detalhes e cuidado jornalístico.


Jamil Chade, Kenedy Alencar, Reinaldo Azevedo, Nelson Garrone e Leonardo Sakamoto, com destaque para o sóbrio e sempre preciso “Café Da Manhã”, podcast da Folha de S. Paulo comandado por Magê Flores, Maurício Meireles, Bruno Boghossian e Angela Boldrini que apresentaram nos últimos dias programas especiais explicando ponto a ponto da invasão à Ucrânia. Esses, citados acima são alguns dos poucos jornalistas que têm conseguido ser faróis que norteiam o debate civilizado, contextualizado e sem paixões, sem se renderem ao apelo do clickbait, do caça cliques que consegue considerar a antipolítica, uma característica intrínseca dos heróis. É prudente lembrar que heróis não existem e que a política é fundamental para a civilidade dos povos.


É possível encontrar também professores e acadêmicos especialistas como Tanguy Baghdad, Reginaldo Nasser, Rodrigo Ianhez, Bárbara Motta, Giorgio Romano Schutte, Cristina Soreanu Pecequilo, Héctor Luis Saint-Pierre e outros, em debates e entrevistas espalhados pelos canais da internet, dando um pouco mais de estofo e seriedade à cobertura da guerra, para que se possa entender a complicadíssima relação entre Rússia e Ucrânia e, principalmente, Rússia e OTAN. Mas quem tem o luxo de pesquisar sobre um assunto tão distante, lá do outro lado do Atlântico, sendo que nem as notícias daqui são bem lidas, são as manchetes que dão o tom do debate, o conteúdo é um triste ignorado no mundo das ideias soltas.


Apesar de todas as incertezas que uma invasão como essa apresenta, o que se pode concluir até agora, partindo da ideia de que a guerra acontece na falência na política e na quebra da diplomacia, o que há é a guerra entre dois delinquentes. De um lado, um delinquente preparado, experiente, com uma potência militar assustadoramente forte e ogivas nucleares como escudo diplomático; contra um delinquente inexperiente, despreparado, aloprado, inconsequente e negligente na diplomacia, um criminoso, tão arrogante e prepotente quanto o Putin, que deixou que sua vaidade colocasse em risco seus habitantes e que agora sequestra os homens de seu país, lhes roubando a liberdade de escolher, impedindo-os de preservar suas vidas com suas famílias. Ao invés disso os obrigam a permanecer e os enviam para uma linha de morte, munidos apenas com coquetéis molotov e carabinas que pouco efeito têm contra um exército altamente equipado e numericamente superior. Seria melhor dar-lhes garrafas cheias de vodka para, com sorte, não sentirem quando a hora de partir chegar. É como se uma das falas do Bolsonaro resultasse em uma ofensiva da China e cada um de nós fosse obrigado a defender as posições de Bolsonaro, usando para isso nossas vidas e, com sorte, um estilingue.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, vem sendo ignorado pela OTAN em seus reiterados pedidos de apoio militar. Algo visto como óbvio por especialistas que veem risco de confronto nuclear, caso a OTAN interfira no conflito contra a Rússia. | Foto: AFP

Reconhecer que nessa guerra não há mocinhos, não significa apoiar a Rússia, ou admirar um governo autoritário, significa apenas entender que a realidade de uma paz nuclear depende essencialmente de uma diplomacia que respeite limites impostos pelos receios que cada uma das potências nucleares tem, de terem seus territórios invadidos ou atingidos. Tal qual os Estados Unidos da América colocaram o dedo no botão vermelho quando a Rússia tentou instalar mísseis em Cuba, não se pode, inocentemente, achar que a Rússia será complacente com uma tentativa de cerco balístico. Não vai.


Por outro lado, parece que uma guerra de sanções também não fará vencedores, pelo menos não sem submeter milhões de pessoas à fome e à miséria, já que uma eventual interrupção do fornecimento de energia russa, congelaria metade da Europa e os fertilizantes da região farão falta em safras do mundo todo, um acidente econômico com poucos precedentes.


A única possibilidade de vitória está no fim da guerra, o fim do conflito, nem que para isso a Ucrânia precise se desmilitarizar completamente e se tornar em um colchão de paz na Europa, algo fácil de compreender, mas muito complicado de acontecer. Guerras movimentam bilhões, muito dinheiro troca de mãos, interesses econômicos e geopolíticos são postos como prioridades, acima da vida, da paz e de qualquer outra palavra bonita que os otimistas gritam nos protestos por paz.


E assim seguimos com Iêmen, Síria, Palestina, Ucrânia e tantos outros países sendo destruídos, uns com mais, outros com nenhum holofote, por uma lógica de guerra por procuração, em que Rússia e EUA não sujam as mãos, mas fornecem todo tipo de máquinas de destruição necessária, para que esses povos se destruam em prol dos interesses imperialistas dos dois grandes gigantes nucleares.


À turminha do amendoim, aos senhores escandalosos, histéricos e pudicos que não se furtam de opinar sobre nada, frente a uma audiência perdida e fiel, senhores que em alguns comentários parecem quase torcer para o Capitão América invadir a Rússia e decapitar o ditador maligno, ignorando completamente o risco representado pelas armas que Putin ostenta, recomenda-se dar mais ouvidos à Dilma, porque em um eventual conflito entre OTAN e Rússia, “não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar, nem quem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.” – ou deixar de existir.

Explosão de bomba na Ucrânia | Foto: reprodução EBC / Getty Images