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A evolução da mulher, sob a ótica do cinema

por Cleber Eldridge e Antônio Pedro


Errante no passado, o cinema de hoje, cada vez mais inclusivo, é canal de exaltação e denúncia sobre os desafios da vida das mulheres.

Laerte-se (Eliane Brum, 2017) | Em cena: Laerte
 

Nesse Dia Internacional da Mulher a revista Dossiê etc resolveu fugir dos clichês e presentear nossas leitoras com um especial sobre a mulher e o cinema. Dizem que A Vida imita a Arte, por isso, achamos que seria bom refletir sobre a forma como a Arte retratou a vida das mulheres. Esperamos que gostem e que essas dicas de filmes inspirem as noites dessa semana tão especial.

 

O cinema, assim como o mundo, evolui. E junto da evolução constante do cinema, está a evolução das personagens, especialmente das mulheres que desde que o cinema foi “fundado” só tem ganhado mais e mais espaço. Atualmente as mulheres, mais do que nunca, têm o seu espaço garantido em frente às câmeras, seja no Brasil, seja os Estados Unidos ou na Europa, personagens marcantes tomaram conta do nosso imaginário nos últimos anos, mas as mudanças não se deram de forma rápida, muito pelo contrário, as mulheres percorreram um longo caminho até conquistarem seu espaço nas telas e deixarem de representar apenas personagens estereotipadas, coadjuvantes, diminuídas e laterais nas tramas.


O cinema começou no final do século XIX, nos anos 1920 com a era dos filmes mudos, apesar da grande presença feminina por trás das câmeras, nos Estados Unidos, muitas mulheres começaram a dirigir, muitas trabalhavam como fotografas e foi em 1931 que a primeira roteirista mulher, Frances Marion, ganhou um Oscar de melhor roteiro por O Campeão (King Vidor, 1931) e pasmem, por um filme sobre boxe. Nessa época, aos poucos a indústria começou a ser dominada pelos homens e a figura da mulher passou a ser moldada por eles e para eles, de forma que a imagem feminina servia apenas como objeto de cena para a apreciação masculina.

A atriz Mary Pickford ao lado de Frances Marion no set de filmagem de "O Bom Caminho" ou Straight is the Way (Paul Sloane, 1934)

Florence Lawrence foi uma das primeiras atrizes do cinema, ao longo de sua carreira ela atuou em mais de 250 filmes, mas no início era chamada a interpretar apenas papéis passivos, desde a camponesa ingênua até a esposa dócil de um personagem central, isso é só para termos uma noção de como eram os papeis. As personagens femininas no início do século XX, estereótipos femininos surgiram desde muito cedo e foram sendo meramente reproduzidos pelos cineastas, sem reflexão acerca da real representação da mulher na sociedade.


O mundo inteiro conhece a história de Joana D’Arc e foi essa, uma das primeiras histórias contadas no cinema, inteiramente protagonizada por uma mulher. Em O Martírio de Joana D’Arc (Carl Theodor Dryer, 1928), Maria Falconetti interpretou a heroína no filme considerado um dos mais importantes da história do cinema. A obra mostra os momentos finais da heroína francesa, desde sua prisão até sua condenação e morte.

O Martírio de Joana D’Arc (Carl Theodor Dryer, 1928) | Em cena: Joana D´arc (Maria Falconetti)

O Código Hays, ou Motion Picture Production Code, freou esse tipo de produção em 1934. O código estabelecia diversas regras que censuravam as produções cinematográficas, de forma que qualquer tentativa de quebra de padrões poderia ser cortada, foi então que surgiram os filmes de princesas; Foi também quando a Disney entrou no mercado de uma vez por todas, com o clássico Branca de Neve e os Sete Anões (David Hand, 1937), um sucesso que abriu caminho para outras inúmeras produções como essa, aliás, essa onda de filmes de princesas influenciou toda uma geração, passou a influenciar não somente mulheres, mas também jovens meninas, que cresciam acreditando na figura do príncipe encantado e que, para ele ser conquistado, elas precisavam manter uma postura recatada, como uma legítima donzela.

Cabaret (Bob Fosse, 1972) | Em cena: Sally Bowes (Liza Minnelli)

O código durou até final dos anos 50 e foi quando a onda feminista ganhou força. Esse foi um período de pensamentos e atividades feministas que se expandiu nos Estados Unidos com o objetivo de aumentar a igualdade de gênero. O objetivo era resistir à opressão da sexualidade feminina, permitindo sua emancipação profissional, social e política e assim, muitos dos filmes produzidos nessa época foram feitos por mulheres e tinham como foco essa temática, mostrando a heterossexualidade do ponto de vista feminino. Mas como nada é perfeito, os homens tiveram a “brilhante” ideia de sexualizar as mulheres, ou seja, os homens conseguiram voltar no tempo e fazer com que as mulheres fossem meros objetos para a apreciação masculina, perpetuando a imagem da personagem sem autonomia, submissa aos homens e, para isso, um filme específico usou desses artifícios, mas o resultado foi o inverso. Cabaret (Bob Fosse, 1972) conta a história de Sally Bowes (Liza Minnelli), uma dançarina na Berlim dos anos 30, uma personagem sexualizada, mas com uma profundidade maior, cercada de homens frágeis. É possível afirmar que sem ela, nossas dançarinas não seriam nada, porém junto da obra-prima de Bob Fosse, é retomada a imagem dos chamados sex symbols, personagens com apelo sexual tão forte a ponto de passarem a ser consideradas símbolos de sensualidade e modelos a serem seguidos, idealizando ainda mais a figura feminina puramente pela estética, sem mostrar seus verdadeiros talentos e potenciais.


No Brasil essa sexualização foi levada a outro nível, pois, salvo as exceções, as chanchadas e pornochanchadas brasileiras tratavam mulheres como bonecas infláveis, manequins de seios, com risadinhas bobas, inocentes, infantilizadas, como se as mulheres fossem apenas alienadas prontas para o sexo a qualquer momento. Dentre as exceções, filmes magníficos também foram criados, é o caso do polêmico Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976) com Sônia Braga no papel da mulher que desafia o pudor da dona de casa, da mulher casada com o homem conservador, em nome de suas fantasias com o desencarnado e desavergonhado, Vadinho (José Wilker). Nesse clássico, apesar de a nudez e o sexo se fazerem presente, é a mulher quem está no controle dos acontecimentos e isso foi uma imagem muito potente para a época.

Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976) | Em cena: Mauro Mendonça (Dr. Teodoro Madureira), Dona Flor (Sônia Braga) e Vadinho (José Wilker)

Os anos 80 chegaram para “abalar” as estruturas do cinema, surgiu então uma onda de mulheres que iam ao cinema e que queriam ver determinados tipos de história. A maior parte das mulheres queria ver romances na tela, mas isso ainda era um problema, porque os filmes daquela década ajudaram a eternizar o papel da personagem ingênua que vê sua vida mudar ao se apaixonar, nunca totalmente independente. Um dos maiores sucessos daquela década é um exemplo disso, foi A Garota de Rosa Shoking (Howard Deuth, 1986). A típica história da menina pobre que se envolve com o jovem popular e rico.


O feminismo tinha efeitos fortes em tudo, mas ainda não era suficiente, especialmente porque focava seus resultados apenas em mulheres brancas de classe média-alta, as outras classes, cores, etnias, nacionalidades e origens diversas eram excluídas. Em A Cor Púrpura (Steven Spielberg, 1985) a personagem principal, Celie (Whoopi Goldberg), é uma mulher negra oprimida que sofre com a violência doméstica e tenta superar o racismo e misoginia no sul rural dos Estados Unidos, com a ajuda de outra personagem forte, Sofia (Oprah Winfrey). Um filme denúncia, muito corajoso, principalmente pela época em que foi produzido.

A Cor Púrpura (Steven Spielberg, 1985) | Em cena: Celie (Whoopi Goldberg)

O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991) | Em cena: Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) e Clarice Starling (Jodie Foster)

O mundo só acordou mesmo nos anos 90, quando surge uma nova onda feminista. Época em que se passou a acreditar que precisava haver mudanças nos estereótipos e retratos da mídia em suas tentativas de definir as mulheres. De lá para cá, as mulheres conquistaram seu espaço e jamais perderam. Um dos primeiros filmes dessa “retomada” da emancipação feminina foi o gigantesco Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991), um filme que conta a história de duas melhores amigas que partem em uma viagem e acabam por se tornar fugitivas da polícia, tentando escapar dos crimes que cometeram, finalmente um filme com duas protagonistas independentes. No mesmo ano O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991) mostra a detetive de personalidade forte, Clarice Starling (Jodie Foster), justamente o que as mulheres queriam ver. Começava a virada do cinema.


Os anos 90 foram repletos de mulheres em frente as telas, Fernanda Montenegro conquistou o mundo ao interpretar Dora no já clássico Central do Brasil (Walter Salles, 1997) uma personagem forte e que mostra uma outra face da mulher comum no Brasil; ainda nos anos 90, Jane Campion fez história com sua obra-prima O Piano (1993). Ela foi, simplesmente, a primeira mulher a vencer a Palma de Ouro no maior festival de cinema do mundo, a segunda diretora indicada ao Oscar – a primeira foi Lina Wertmuller, por O Pascoalino das Sete Belezas (1975) – O Piano, mostrava a relação de uma mulher muda, Ada McGrath (Holly Hunter), com seu piano, um filme fortíssimo e que também mostra uma face completamente diferente da mulher, especialmente porque o filme se passa no século XVIII na Australia, completamente diferente da situação no Brasil. Ainda falando sobre Jane Campion, ela se tornou a primeira mulher indicada ao Oscar de melhor direção duas vezes, agora em 2022 por Ataque dos Cães (2021) e já vou deixar avisado aqui, que ela é a favoritíssima, podendo se tornar, assim, a terceira mulher a ganhar esse prêmio, lembrando que no ano passado Chloé Zhao levou o prêmio por Nomadland (2020), uma obra prima de denúncia social, também estrelada por uma mulher, Frances Louise McDormand, vencedora do Oscar por essa atuação.

Central do Brasil (Walter Salles, 1997) | Em cena: Josué (Vinicius Oliveira) e Dora (Fernanda Montenegro)

O cinema brasileiro, assim como no resto do mundo, abriu espaço para as mulheres, o melhor desses espaços foi em Domésticas (Fernando Meirelles e Nando Olival, 2001) que apresenta o cotidiano de empregadas domésticas e suas duras vidas. As humilhações tanto no trabalho como em casa. Quase 15 anos depois, um olhar totalmente diferente da mesma classe de trabalhadora, Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015) foi um sucesso e grande parte disso foi por conta da atuação de Regina Casé como a empregada doméstica Val, representando o dia a dia da empregada, acabando com a imagem hipócrita de que empregados são parte da família. Cenário parecido com o da personagem Cleuza, da premiada Sandra Coverloni em Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008).


O Amadurecimento do cinema nacional também surpreendeu com obras fortes, filmes de guerra, mais precisamente a abordagem da vida e luta política de Olga Benário, vivida fabulosamente por Camila Morgado, na história que se passa durante a 2ª grande guerra, em uma das atuações mais impressionantes do cinema brasileiro – Olga (Jayme Monjardim, 2004).


E como nem tudo são flores, o cinema brasileiro abriu espaço e se permitiu tirar a delicadeza e mostrar um outro lado possível da mulher que pode ser vilã, o lado cruel e sem escrúpulos, nada frágil e nada inocente. Nesse caso a personificação da maldade ficou por conta de Leandra Leal como Rosa, em O Lobo Atrás da Porta (Fernando Coimbra, 2013).

Olga (Jayme Monjardim, 2004) | Em cena: Luis Carlos Prestes (Caco Ciocler) e Olga Benário (Camila Morgado)

O mundo parece finalmente ter acordado e tomado um caminho sem volta. Agora o cinema exige uma maior representatividade feminina nos filmes atuais, além de avaliar o desempenho destes nesse quesito, especialmente porque as mulheres ainda representam 51% dos frequentadores de cinema, segundo pesquisas do Motion Picture Association of America (MPAA). Por isso, filmes como Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016), que mostra Clara (Sônia Braga) uma mulher independente e especialmente forte, a ponto de combater a especulação imobiliária, precisam existir e continuar colocando a mulher no papel de centralidade nas lutas políticas e socioeconômicas, em uma situação semelhante a Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019), outro grande sucesso, também protagonizado por Sônia Braga, que vive a líder comunitária Domingas.


Filmes como Elle (Paul Verhoaven, 2016), A Pior Pessoa do Mundo (Joachim Trier, 2021) são cada vez mais necessários e ainda hoje, tempo da inclusão, o trabalho de diretores que dedicaram a vida a mostrar as mil e uma faces da mulher, merecem um certo destaque especial, como Pedro Almodóvar.



Mulheres TRANScendendo


O cinema não vive só de histórias sobre mulheres cis, ou seja, que se reconhecem com o sexo de nascença, nos últimos anos, mais do que nunca, as mulheres transexuais conquistaram seu espaço, em 2017 o Chile fez história ao conquistar seu primeiro Oscar de melhor filme internacional com o filme Uma Mulher Fantástica (Sebastian Lelio, 2017) narrando à lindíssima história de Marina (Daniela Veja), uma década antes Felicity Huffman foi a primeira mulher indicada ao Oscar de melhor atriz por interpretar uma transexual no filme Transamerica (Duncan Tucker, 2006), o que hoje é lido como “transfake”, ou seja, uma pessoa cis que interpreta uma pessoa trans. porém, o mais importante é que as mulheres trans ocupem seu espaço na sétima arte, colocando suas vozes, seus corpos e suas atuações ao dispor das personagens mais diversas, inclusive no papel de mulheres cis – mas nesse processo de inclusão, o retrato mais marcante foi com Tangerine (Sean Baker, 2015) filme de estreia de um dos diretores mais promissores da década passada, marco porque não mostrou “apenas” a luta das transexuais, mas das transexuais negras e pobres nas ruas de Los Angeles – e não que faça alguma diferença, mas esse filme tem uma curiosidade extra, foi filmado inteiramente com um iphone – e, detalhe importante, Mya Taylor e Kitana K. Rodriguez, as atrizes do filme nunca tinham atuado antes.