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ESPECIAL: CineBR – Diretores Nacionais – Parte 01

Os pioneiros, a busca pela identidade e os principais nomes do “Cinema Novo”.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1963) | Em cena: Corisco (Othon Bastos)
 

CineBR - Diretores Brasileiros é uma série especial de publicações do Portal Dossiê etc, escrita por Cleber Eldridge, com pesquisa e edição de Antonio Pedro, sobre os diretores que pavimentaram a estrada do cinema nacional.


Mais do que um conteúdo especial, esse série é mais um resultado do compromisso que a Revista Dossiê etc tem de promover a cultura nacional. Esperamos que goste de mais esse resultado.

 


A Revista Dossiê etc, como vocês já notaram, tem focado muito no cinema nacional, nosso intuito é celebrar nosso cinema que, por muitas vezes é subestimado, especialmente por quem não o conhece. Mas cá estamos para desmistificar essa ideia, começamos com, Telas BR um especial sobre entretenimento geral, falando de séries, novelas e afins, passamos pelas Caras dos Cinema Brasileiro, uma homenagem aos atores que fizeram história para nosso cinema e listamos, no CineBR 50 MAIS, os 50 Melhores Filmes brasileiros, agora chegou a hora de falar deles, os diretores, as figuras que orquestram toda uma equipe fazendo a visão deles, chegar até o cinema e nos maravilhar com a magia do audiovisual.


Desbravadores:

Limite (Mario Peixoto, 1931)

O cinema brasileiro é um dos mais longevos do mundo, desde o final do século XIX (1.897), começou a servir de cenários para filmes. No início com filmes bem curtos, mostrando paisagens, inaugurações de ferrovias, em 1914 o país produz O Crime dos Banhados, mas o diretor era estrangeiro, o português Francisco Santos e assim continuou por muito tempo, com longas sendo produzidos principalmente por diretores internacionais, até que, nos anos 30, surge Mario Peixoto, com seu longa-metragem, Limite (1931) que foi a nossa primeira produção longa-metragem expressiva, dirigida por um diretor brasileiro. Portas abertas, tabu quebrado, não demorou muito para outros talentos surgirem e mostrarem seu talento, caso de Humberto Mauro e seu Ganga Bruta (1933), ou Vital Ramos de Castro, diretor de O Carnaval Cantado (1932), primeiro filme de Carmem Miranda, e Ruy Costa, que também dirigiu Carmem Miranda em Alô, Alô Carnaval (1.936) antes de despontar em diversas produções de 1940 em diante.

Ganga Bruta (Humberto Mauro, 1933) | Em cena: Dr. Marcos (Durval Bellini) e Sra. Marcos (Lu Marival)

Mas, o cinema nacional, como sabemos, nem sempre foi flores. No início do século XX o país não tinha dinheiro suficiente para desenvolver a atividade cinematográfica e nem capacidade instalada, principalmente por falta de técnicos, um mercado ainda muito incipiente, em seguida veio a primeira Guerra que tornou a matéria prima mais cara e escassa. O jeito foi cortar custos.


A década de 40 foi responsável por criar as primeiras grandes estrelas do cinema nacional, Grande Otelo e Oscarito, nomes reconhecidos até os dias atuais, surgiram ali, em musicais da era das Chanchadas, com baixo e baixíssimo orçamento, como Moleque Tião (1.943), dirigido pelo radialista, compositor, ator, produtor e diretor, José Carlos Burle, um dos maiores nomes desse movimento, a frente de outros 7 filmes durante a década, dentre eles o sucesso Tristezas Não Pagam Dívidas (1944) da Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil S.A.

Grande Otelo e Oscarito, uma das maiorias duplas do cinema nacional, atuaram juntos em 13 obras.

Anos Dourados e a profissionalização do cinema nacional:


A década de 50, os famosos “anos dourados”, foram muito generosos com o cinema Nacional, com a criação da Companhia Cinematográfica Vera Cruz (estúdios Vera Cruz), o cinema nacional ganhou outra percepção de grandeza e o setor atraiu mais investimentos. Foi nessa década que o Brasil riu com Amácio Mazzaropi, dirigido por grandes nomes, como Abílio Pereira de Almeida que o lançou no cinema com Sai Da Frente (1952) e outros diretores como Victor Lima, que não só dirigiu Mazzaropi em Chico Fumaça (1958) e O Noivo da Girafa (1957) como também, Oscarito em Nem Sansão Nem Dalila (1954) e Grande Otelo em Pé Na Tábua (1958).

Chico Fumaça (Victor Lima, 1958) | Em cena: Verinha Vogue (Nancy Montez), Dr. Limoeiro (Carlos Tovar) e Chico Fumaça (Amácio Mazzaropi)

Nelson Pereira dos Santos, diretor e jornalista, também pode ser considerado um dos grandes nomes da década. Muito reconhecido por Vidas Secas (1963) — trágico retrato da seca do sertão que obrigava famílias a se retirarem. Um filme que marcou o nascimento do movimento Cinema Novo, um cinema mais próximo do povo e de seus problemas— Nelson já tinha filmado Rio, Zona Norte (1957) e o chocante, com enorme repercussão até hoje, Rio, 40 Graus (1955).

Por falar em fama, o nome mais popular do nosso cinema ainda é Glauber Rocha, entusiasta e crítico do “Cinema Novo” – movimento mais popular e contestatório do nosso cinema – seus principais filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968) invertem a lenda do cangaceiro e tiram proveito de uma crítica social do Brasil. Não é um cinema fácil, mas é uma experiência. O cinema de Glauber Rocha é dominado por imagens barrocas e denúncias de desigualdades, foi também um dos nossos diretores mais premiados em virtude de suas tendências neorrealistas que levam os júris ao delírio, mas Rocha, como tantos outros, passou por problemas, especialmente depois de fugir do Brasil em 1971, alguns anos mais tarde ele se mostra a favor da ditadura militar que é quando sua carreira termina.

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1968)

A busca pela identidade do cinema nacional:


O Cinema Marginal, foi também um dos movimentos mais populares do nosso cinema, Rogério Sganzerla foi um dos mais populares do movimento, seu principal filme foi O Bandido da Luz Vermelha (1968). Seus primeiros filmes tiveram exibições públicas, os demais ficaram apenas no circuito alternativo, nesse caso, destaco Nem Tudo é Verdade (1986) um documentário que mostrou a estádia de Orson Wells no Brasil. Júlio Bressane foi outro nome de sucesso do movimento, que foi sempre um provocador e experimentalista, Sermões (1989) foi um de seus melhores trabalhos.

O nome Ruy Guerra é um que merece destaque, nascido em Moçambique, ele veio para o Brasil e parece que foi uma escolha certeira, afinal de contas, o sucesso lhe aguardava. Os Cafajestes (1962) foi o primeiro, uma comédia sobre um garoto que roubava roupa de garotas na praia, o diretor mudou de estilo com Sweet Hunters (1969) sobre amores frustrados, mas Guerra fincaria seu nome na história do cinema brasileiro com A Queda (1976) e especialmente Os Fuzis (1963).

Os Cafajestes (Ruy Guerra, 1962) | Em cena: Leda (Norma Bengell) e Vavá (Daniel Filho)

O Pagador de Promessas (1962) continua como o único filme brasileiro a vencer a Palma de Ouro no Festival De Cannes, dirigido pelo, então ator, Anselmo Duarte, que se distanciou do “Cinema Novo”, assim como Domingos de Oliveira e seu Todas as Mulheres do Mundo (1966) que abriu ciclo para as comédias urbanas e que depois se desvirtuaria para um dos gêneros que mais marcaram o cinema nacional, as pornochanchadas com seus sucessos de público. O diretor ainda tentou um cinema mais sério, mas devido a censura e a repressão, ele não conseguiu.

À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) | Em cena: Zé do Caixão (José Mojica Marins)

O terror não ficaria de fora e nosso mais famoso personagem Zé do Caixão, interpretado pelo diretor José Mojica Marins foi o mais popular exemplo. Fazendo filmes desde 1946, foi em 1964 que o diretor ganhou o grande público quando dirigiu À Meia Noite Levarei Sua Alma, filme que lançou o famoso personagem. O sucesso foi meteórico e apenas dois anos depois lançou seu o que talvez seja o maior sucesso, Esta Noite Encarnarei teu Cadáver (1966) criou-se uma figura mítica para o nosso cinema e assustou muita gente, eu inclusive, que tenho horror a esse filme, aliás, o diretor conquistou os críticos e o público fazendo um terror primitivo, sensacionalista e para lá de grotesco. Infelizmente Mojica foi o único diretor fez sucesso com o gênero.


O “Cinema Novo” como já mostramos ao longo do texto, angariou muitos diretores, foi uma época em que eles podiam falar de tudo e sem medo, uma época que ainda não tinha censura, um dos mais importantes foi Leon Hirszman, um dos mais brilhantes diretores do Brasil. Hirszman acertou em cheio na adaptação de Graciliano Ramos, São Bernardo (1971) e teve a consagração definitiva com Eles Não Usam Black-Tie (1981) que ganhou, nada menos que, quatro prêmios no Festival de Veneza.


O trabalho do diretor de cinema é algo ‘estranho’ – alguns precisam de anos até colocar seu nome de vez no circuito, outros, com apenas um trabalho, ganham o mundo, caso de Luiz Sérgio Person e seu São Paulo S.A(1964), uma obra intimista que mostra a crise de um casal e social, uma visão da São Paulo se industrializando descontroladamente. Um visionário.

Eles Não Usam Black-tie (Leon Hirszman, 1981) | Em cena: Tião (Carlos Albert Ricelli), Bráulio (Milton Gonçalves), santini (Francisco Milani), Jesuíno (Anselmo Vasconcelos) e grande elenco.

O intuito desse especial sobre os diretores que fizeram história no cinema nacional, como é possível notar, não é só falar dos diretores e de seus principais e melhores filmes, muito menos ranquear os melhores e os piores, mas sim, apresentar àqueles nomes que marcaram época e “tentar induzir” você leitor, a ficar curioso e procurar esses filmes e tirar suas próprias conclusões.


Para um primeiro capítulo acho que já falei demais, por hoje é isso. Espero que tenha gostado e nos acompanhe pelos próximos capítulos, nas próximas semanas. Semana que vem falaremos de uma geração muito prolifera, os anos 70, 80 e 90. Até lá!