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ESPECIAL: CineBR 50 MAIS - TOP 10

Atualizado: 11 de out. de 2021

O suprassumo do cinema nacional, o "creme de la creme" da 7ª arte brasileira. Chegamos ao tão esperado TOP 10 da série Cine BR 50 MAIS.

Aquarius (Kleber M. Filho, 2016) | Em cena: Roberval (Irandhir Santos) e Clara (Sônia Braga) | Foto: Victor Jucá / Divulgação
 

Com esse TOP 10, chegamos ao fim do ESPECIAL Cine BR 50 MAIS publicada aqui no portal Revista Dossiê etc, uma série especial sobre o cinema nacional que resgatou a memória do nosso cinema e elegeu os 50 melhores filmes nacionais de todos os tempos.


A curadoria da série foi feita pelo crítico de cinema Cleber Eldridge e a edição por Antônio Pedro Porto ao longo das últimas 5 semanas.

 

10. Central do Brasil (Walter Salles,1998)

Central do Brasil (Walter Salles,1998) | Em cena: Josué (Vinicius de Oliveira) e Dora (Fernanda Montenegro)

O nome dele mais uma vez se faz presente, Walter Salles – agora com um dos filmes mais queridos por cinéfilos, críticos e público no geral, o nosso último indicado ao Oscar de melhor filme internacional, o filme que rendeu uma indicação à Fernanda Montenegro, de melhor atriz. Não vamos entrar no assunto de que ela merecia aquele prêmio, porque se não vamos ficar horas degringolando, mas esse vencedor do Urso de Ouro de melhor filme, é tudo aquilo que dizem e mais um pouco.

O filme conta a história de Dora (Fernanda Montenegro), que escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil, a principal estação de trem no Rio de Janeiro. Lá, uma das clientes é Ana (Soia Lira), que vai escrever uma carta com seu filho, Josué (Vinicius de Oliveira), um garoto de nove anos que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Na saída da estação, Ana é atropelada e Josué fica órfão. Mesmo a contragosto, Dora acaba acolhendo o menino e criando afeto por ele. Termina por levar Josué para o interior do nordeste, à procura do pai. À medida que vão entrando pelo país, estes dois personagens tão diferentes vão se aproximando.

O filme de Walter Salles mostra as “estradas da vida” – foi a obra que depois da retomada do cinema nacional, conquistou o mundo, como já mencionei acima, abocanhou prêmios em Veneza, no Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar, não por menos, é um dos melhores e mais emocionantes filmes que o nosso país já realizou, entre cartas não entregues, viagem de carona e passagens de ônibus, Fernanda Montenegro e Vinicius de Oliveira entregam as atuações de suas carreiras, nessa obra.


Onde assistir: GloboPlay


9. Um Dia na Vida (Eduardo Coutinho, 2010)

Um Dia na Vida (Eduardo Coutinho, 2010) | O documentário que reflete sobre um dia acompanhando a TV brasileira.

O documentarista Eduardo Coutinho ficou conhecido por suas conversas, foi assim que realizou os seus melhores documentários. Pouco antes de sua morte, Coutinho pensou e desenvolveu uma ideia muito simples, mas diferente de tudo o que já tinha feito ao longo de sua brilhante carreira.

O que Coutinho pensou foi: gravar 19 horas de programas e comerciais de canais abertos, assim ele editou o material, gerando pouco mais de uma hora e meia de filme, nas mãos erradas, essa ideia corria risco de ser apenas um truque pretensioso e sem valor, mas nas de Coutinho, virou uma narrativa reveladora e impactante sobre a televisão brasileira, ou melhor, de como a nossa programação é ridícula.

O que passava na televisão em 2010 – você provavelmente não lembra, começávamos a manhã com o Telecurso 2000 que ensinava alguma coisa, depois os jornais regionais, desenho pra criançada em uns, missas e cultos religiosos em outros, na hora do almoço mais notícias, esportes, de tarde quando a audiência é naturalmente menor, os programas ficam ainda mais toscos, casos de família, beleza renovada, fofocas dos artistas e por ai vai – o que Coutinho quis mostrar ali foi como somos reféns de uma programação pobre, uma experiência histórica, linguística, social, política e manipuladora que você mesmo poderia ter feito, se não fosse - com o perdão da palavra - tão otário.


Onde assistir: YouTube


8. Democracia em Vertigem (Petra Costa, 2019)

Democracia em Vertigem (Petra Costa, 2019)

O que esse filme faz aqui e, principalmente, em uma colocação alta – sério, em nono lugar nos 50 melhores filmes de todos os tempos, o cara que fez essa lista só pode ser um esquerdopata alucinado – provavelmente é isso que você está pensando, mas calma lá, vamos por partes.


O filme de Petra Costa é tendencioso, sim, claro que é, qualquer documentário é, afinal de contas, um documentário precisa tomar partido, precisa escolher uma causa para atacar ou defender, quem o assiste também tem que escolher um lado e por isso vou deixar o meu lado bem claro: FOI GOLPE!

O documentário – indicado ao Oscar, para quem não sabe - acompanha o Impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro, através de um olhar pessoal, mergulhamos em uma jornada na história da jovem e polêmica democracia brasileira. O que é importa aqui, é você ficar do lado certo, se você leitor é de direita, provavelmente não assistiu esse filme e se assistiu, achou um absurdo, natural – todo santo dia o presidente eleito comete uma atrocidade e nada é feito, o que nos, meros mortais podemos fazer?

O que você precisa entender aqui é que, estamos diante de um documentário que coloca em pratica notícias reais, verdadeiras – que esse é um filme obrigatório para entender um pouquinho da nossa atual situação política, Petra faz um painel completo sobre a época do Impeachment não se furtando a fazer críticas seja de posições do Governo e da oposição, lembrando que ela como qualquer outra pessoa, tem sua própria posição, no mais o esperado, quem se enfureceu com os fatos apresentados tenta fazer crer que são mentiras, mesmo sabendo que estão errados.

Onde assistir: Netflix


7. Domésticas (Fernando Meirelles e Nando Olival, 2001)

O Brasil é imenso, sabemos disso, no meio de toda essa imensidão somos mais de 200 milhões de pessoas, de todas as cores, raças, crenças, ideias, classes e gostos, no meio da nossa sociedade existe um Brasil notado por poucos, um país formado por pessoas que, apesar de morar dentro de sua casa e fazer parte de seu dia a dia, é como se não estivesse lá, as empregadas domésticas.

O engraçadíssimo filme da dupla Meireles e Olival gira em torno de cinco exemplares desse Brasil “escondido”. São elas: Cida (Renata Melo), Roxane (Graziela Moretto), Quitéria (Olívia Araújo), Raimunda (Claudia Missura) e Créo (Lena Roque), cada uma com a sua mania: Uma quer se casar, a outra é casada, mas sonha com um marido melhor, uma outra sonha em ser artista de novela e outra acredita que tem por missão na Terra servir a Deus e à sua patroa. Todas têm sonhos distintos, mas vivem a mesma realidade: trabalhar com empregada doméstica.

O principal propósito do filme é fazer com que o expectador enxergue que aquela “moça da limpeza” é uma pessoa, é um ser humano, ela tem seus sonhos e objetivos e o filme consegue isso com muita facilidade, mas vai além, porque no final das contas, estamos diante de uma comédia, as personagens são estranhamente engraçadas, com suas manias e falas, resumindo, Meirelles e Olival miraram um alvo e acertaram dois. Poucas vezes na vida eu ri tanto com um filme, como ri desse.


Onde assistir: YouTube Filmes


6. Gabriel e a Montanha (Fellipe Barbosa, 2017)

Gabriel e a Montanha (Fellipe Barbosa, 2017) | Gabriel (João Pedro Zappa

O diretor Fellipe Barbosa era um dos grandes amigos de Gabriel Buchmann, eles conviveram, estudaram juntos e se tornaram amigos – essa é uma daquelas histórias que emocionam. Logo após a trágica morte de Gabriel, seu amigo e diretor de cinema, Fellipe Barbosa, percorreu os mesmos lugares da viagem, falou com as mesmas pessoas, entrevistou, coletou fatos para então contar essa lindíssima história de vida, o resultado é uma obra magnífica.

Gabriel (João Pedro Zappa), em uma atuação implacável) é um jovem aventureiro cheio de planos para sua vida de estudos, porém, antes de se preparar para a jornada na Universidade da Califórnia, ele decide ir para a África, durante a viagem, Gabriel decide subir o Monte Mulanje, um dos mais altos do Malawi, algo que trará a tragédia para a sua vida.

Sou suspeito para falar já que, sou louco por histórias como a do Gabriel, que larga tudo e todos e cai no mundo sem olhar para trás; a peregrinação do garoto por vários países da África, até a sua tola morte me cativou do início ao fim e, ainda que seja longo demais, eu aguentaria mais meia hora, com um belo discurso educacional, um elenco naturalista que poucas vezes vi igual e muito bem dirigido. Gabriel e a Montanha foi uma deliciosa surpresa, de qualidade única. Só aumentou minha paixão por histórias como essa e, claro, minha vontade de colocar uma mochila nas costas e sair mundo a fora. Lógico que, infelizmente, nem tudo é assim simples como parece, então a gente fica feliz de embarcar na viagem desse filme. Um dos melhores da história do cinema nacional.

Onde assistir: Netflix


5. Bacurau (Kleber M. Filho, Juliano Dornelles, 2019)

Bacurau (Kleber M. Filho, Juliano Dornelles, 2019) | Em cena: ao centro (Sônia Braga), cercada de grande elenco real. | Foto: Victor Jucá / Divulgação

O último filme nacional que foi sensação no mundo inteiro – vamos voltar um pouco no tempo, em 2017, Kleber Mendonça Filho anunciou que seu próximo filme seria um faroeste com ficção-científica, só disso já se criou uma expectativa. Como ele faria isso? Onde ele seria filmado? Qual seria sua história? E o elenco?


Não sabíamos nada e nem poderíamos, já que, qualquer brecha estragaria toda a experiência que o filme é. Bacurau estreou então na competição de Cannes em 2019, pela Palma de Ouro – os críticos amaram, o filme ganhou o Grand Prix (segundo lugar) no festival, depois fez um longo percurso por vários festivais do mundo, passou em Toronto, Nova Iorque e só então estreou no Brasil.

O filme gira em torno de uma espécie de massacre que se desenha na quase escondida cidade de Bacurau, onde os moradores, à mercê de políticos e milicianos, serão alvos de mercenários estrangeiros. O meu único problema com o filme foi achar que ele demora muito para apresentar as personagens e engatar a situação, mas, quando vai, é uma pancada atrás da outra, é tanto que em determinado momento cheguei a paralisar.

É um filme sobre o Brasil, é sobre política, é sobre desigualdade, é sobre cidadania e um pouco de tudo e qualquer coisa que eu venha a falar pode estragar a experiência única que é esse filme. Sonia Braga, mais uma vez, rouba a cena, o elenco de não atores deu um tom de realidade assustadora, um choque de realidade inigualável.


Onde assistir: Globo Play


4. Babenco – Alguém tem que ouvir o Coração e Dizer: Parou (Barbara Paz, 2019)

Babenco – Alguém tem que ouvir o Coração e Dizer: Parou (Barbara Paz, 2019) | Em cena: Babenco

O grande Hector Babenco, como mencionei quando falei dos filmes do diretor que apareceram na lista (Pixote & Carandiru) sempre focaram em falar da sociedade brasileira, dos problemas com o sistema governamental e afins, mas esse não se trata de um de seus filmes e sim de uma homenagem de sua esposa, a atriz Barbara Paz, que esteve ao seu lado em seus últimos seis anos de vida.

O diretor faleceu em 2016, foi quando Bárbara Paz resolveu contar toda a história do diretor de forma documental e em preto-e-branco. O resultado é uma obra sobre um artista, uma experiência que explicita o poder do cinema em evocar memória e falar sobre o tempo. É um lindo relato sobre alguém que viveu desde cedo em contato com a morte e que, em meio a isso, só reiterou sua paixão pelo ofício e, consequentemente, pela vida em si.

Os primeiros minutos do documentário são suficientes para arrebatar qualquer amante do cinema e da vida. Babenco narra momentos de sua jornada com um tom de voz diferente de absolutamente tudo o que já presenciei, a colagem com momentos de seus filmes, enquanto ele comenta de forma profunda, são extremamente tocantes.


Um ser humano profundo, que lutou por sua vida, que lutou pelo cinema, que amava o cinema, que amava a vida, que amava o Brasil, diretor muito subestimado e como ele mesmo sussurrou em seu leito de morte:


“... Eu já vivi a morte, agora tenho que filmá-la”.

Simplesmente em transe, uma obra-prima.

Onde assistir: YouTube Filmes


3. Edifício Master (Eduardo Coutinho, 2002)

cena do documentário: Edifício Master (Eduardo Coutinho, 2002)

O que falar de Eduardo Coutinho que ainda não foi dito? De qualquer maneira vou repetir para ficar fresco na memória, que Coutinho foi o melhor documentarista brasileiro, isso é um fato, talvez um dos melhores diretores que existiram, que Coutinho fazia seus documentários através de conversas. Também não é segredo para ninguém, mas essa obra aqui, esse Edifício Master, é sua obra definitiva.

O documentário consiste em uma série de entrevistas com moradores do Edifício Master, um grande prédio de apartamentos tipo conjugado, com mais de vinte por andar, mais de 200 no total. Localizado em Copacabana, durante apenas uma semana, o diretor e sua equipe entrevistaram 37 moradores em 26 apartamentos, montando um painel de histórias e personagens incrivelmente fascinante — e quando digo fascinante, realmente é fascinante.

“O que isso tem demais”, você leitor, pode estar se perguntando, é claro que para esse tipo de filme é preciso uma certa sensibilidade, é como sentar e ouvir a história de um completo estranho, o mais impressionante é que aqui, não existe nenhum, absolutamente nenhum relato que seja inferior, todos eles são emocionantes, especialmente o da mãe que é uma garota de programa e não tem vergonha de sua profissão, ou de uma outra que, simplesmente não consegue encarar a câmera ou mesmo Coutinho.


Só assistindo para entender o quanto esse documentário diz sobre a vida.


Onde assistir: Globo Play


2. Aquarius (Kleber M. Filho, 2016)

Aquarius (Kleber M. Filho, 2016) | Em cena: Clara (Sônia Braga) | Foto: Victor Jucá / Divulgação

O cinema de Kleber M. Filho ainda era inédito para mim quando fiquei sabendo que ele tinha sido selecionado para o Festival de Cannes 2016 – esse festival tem um significado especial para mim, mas isso é papo pra outra hora – ainda em Cannes, a equipe protestou no tapete vermelho com cartazes contra o Impeachment da presidenta Dilma Rousseff , deu o que falar, depois do filme, foi unanime, tudo quanto foi crítico ao redor do planeta, tinha amado o filme, ansiedade a mil, alguns meses depois o filme finalmente estreou no Brasil e eu, é claro, estava lá na estreia.

O filme narra a história de Clara (Sônia Braga), que já passou dos sessenta, é uma escritora e crítica de música aposentada, viúva, mãe de três filhos adultos e moradora de um apartamento repleto de livros e discos, em um edifício chamado Aquarius. Clara tem também o dom de viajar no tempo, um superpoder que poucas pessoas no mundo são capazes de desenvolver, mas seu maior problema está em um corretor de imóveis que quer a qualquer custo vender o prédio.

Aquarius não é só o segundo melhor filme nacional de todos os tempos, como é sim uma obra única para o cinema brasileiro, Kleber Mendonça Filho nos entrega uma obra-prima, dono de uma singularidade, o filme trabalha em cima de uma história muito simples, porém contada com uma maestria que eu raras vezes vi no cinema, o filme é gostoso e inteligente em uma escala muito alta, o diretor poderia continuar contando a história de Clara por mais meia hora que eu definitivamente não iria achar ruim.

Sonia Braga parece ter encontrado o personagem de sua carreira. Sensacional, excepcional e mais todos os elogios para o filme são poucos, em sala lotada, ao fim da sessão aplausos acalorados, de pé, e como não seria diferente, um Fora Temer retumbante, pois bem, Aquarius é um dos melhores exemplares da sétima-arte.


Onde assistir: Globo Play


1. Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) | Em cena: Buscapé (Alexandre Rodrigues),

O que um filme precisa para ser chamado de “o melhor de todos os tempos”?


O mais importante é entender que qualquer lista é relativa, não existe e nem nunca vai existir consenso, discordância faz parte de qualquer meio e essa é a graça. Mas, o melhor filme nacional de todos os tempos — na minha humilde opinião —, não é só o melhor filme brasileiro, como um dos melhores da história do cinema mundial e se você já assistiu ao filme, sabe do que estou falando, eu simplesmente poderia parar de falar agora, mas vamos lá.


A história é fictícia, mas inspirada em fatos narrados por um jornalista que foi morador da Cidade de Deus, no livro de mesmo nome. A história conta a vida de um garoto chamado Buscapé (Alexandre Rodrigues), desde sua infância, nos anos 60, até o início de sua vida adulta, no final dos anos 70, dando uma ideia da criação das favelas, da origem do tráfico de drogas e de sua relação no dia a dia dos moradores.


O filme foi indicado a quatro Oscar: de melhor diretor para Fernando Meirelles, melhor fotografia, edição e roteiro – era o melhor filme do ano tranquilamente, o elenco é magistral, a fotografia alaranjada nos joga para dentro daqueles dias, a edição dá o ritmo frenético ao filme e a história é fantástica, tudo isso somado a todas as cenas que já fazem parte da história do cinema e que entraram na cabeça de qualquer brasileiro.


Quem não se lembra do “...Pega a galinha...”, ou, “...Quer tiro na mão ou pé?”, quando a molecada do “Caixa Baixa” é enquadrada pelo maior personagem que esse cinema já criou, Zé Pequeno (Leandro Firmino).