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Mais CPI e menos voluntarismo

Na ausência da oposição, resistência racional dependeu de Omar Aziz.

Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), senador Omar Aziz, conversa com o relator, sen. Renan Calheiros. | Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado

Abandonado a própria sorte pela ala opositora, o plenário do senado virou o picadeiro de um verdadeiro circo de horrores.


É compreensível que pessoas que prezam pela ciência, sejam intolerantes àqueles que a negam, porém, uma vez elevados a um palanque de afirmações absurdas, é um dever cidadão, uma obrigação moral, enfrentá-los no campo das ideias. É necessário contrapor e desconstruir racionalmente cada um dos discursos absurdos proferidos, exatamente no tom usado pelo Senador Otto Alencar em resposta aos aparentes devaneios da dra. Nise Yamaguchi sobre um assunto que sequer são a especialidade dela.


É de fato, extremamente cansativo e, intelectualmente, desgastante ouvir tantas afirmações estapafúrdias na direção oposta ao que vem sendo contemplado pela boa ciência, absurdos como os que o Dr. Ricardo Zimerman falou sobre eventuais riscos sobre o isolamento social, prontamente desconstruídos pelo presidente da sessão, o senador Omar Aziz.


A oposição esvaziou a sessão, simplesmente não compareceram ao plenário, nem se inscreveram para fazerem perguntas aos convidados. Na mesma linha, o sen. Renan Calheiros abriu a sessão, mas de largada disse que se recusaria a interrogar pessoas que não tinham compromisso com a verdade, eram apenas convidados para esclarecimentos sobre protocolos de tratamento precoce e uso de medicamentos questionados como inúteis e perigosos no tratamento contra a covid.


Sobrou para o Senador Omar Aziz o bom senso de estabelecer um mínimo contraponto possível dentro das informações que a essa altura ele já tem domínio.

Omar Aziz reage a falas do médico Ricardo Zimerman | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Logo no início da sessão, com dados estatísticos sobre o seu estado, o Amazonas, demonstrou que as “teses” do médico sobre o isolamento social eram inconsistentes e assim, mostrou que o oceano de absurdos encontraria alguma fronteira.

Sem titubear, Aziz, que perdeu seu irmão para a pandemia, também protagonizou outro momento muito interessante durante a CPI. Quando os médicos convidados foram perguntados pelo senador governista, Eduardo Girão, se tinha conflitos de interesse político ou econômico, ambos responderam prontamente que não tinham nenhum conflito de interesse político nem econômico, mas o presidente da sessão interrompeu:

“Eu vi uma matéria ontem, os senhores são assessores da OEA?


O médico pesquisador, Zimerman, iniciou uma resposta:


“Na verdade, o que aconteceu foi um convite para fazer uma análise referenciada em

questão de biossegurança, como vacina por exemplo. Um convite que me honra...”


Interrompendo, o sen. Omar pergunta para o médico Francisco Alves, que responde prontamente que “sim”. O senador então se vira para Ricardo e pergunta:


“Convidado pelo Weintraub?”


Ricardo: “Sim”.


Sen. Omar, voltado para Requião reforça:


“Não tem conflitos de interesse; foi convidado pelo Weintraub, cujo irmão fazia parte daquele Ministério Paralelo (referência ao grupo de médicos que aconselhavam Bolsonaro sobre a condução da pandemia, fora da agenda oficial do Ministério da Saúde) foi pedido para que ele fizesse um estudo, sobre o uso da cloroquina, pelo próprio presidente, não dito por mim, dito pelo Arthur (Weintraub), irmão do ex-ministro da educação”


Apesar de não indicar isso com todas as palavras, para bons entendedores basta perceber que Ricardo Zimerman teve vantagens financeiras, na importância de R$ 10 mil reais, como ele mesmo confirmou posteriormente na mesma sessão, em posição de prestígio em uma organização internacional, a OEA, convidado pelo irmão daquele que será investigado como um dos líderes do “gabinete paralelo”. Há conflitos de interesse? Conclua você, caro leitor.


Infelizmente, com a ausência da oposição, os governistas manobraram o debate invertendo a ordem do questionamento. Muito se bateu na tecla de que os tratamentos médicos, nem sempre possuem o padrão ouro de estudos (duplo cego, randomizado controlado com placebo etc.), entretanto o ponto nunca foi esse, o problema é que depois que se conseguiu um estudo de padrão ouro afirmando a ineficiência de um medicamento como a cloroquina/hidroxicloroquina, o uso deveria ter sido suspenso para evitar os efeitos colaterais, já que não contribuíam em nada para a efetiva melhora dos pacientes.


Em outra boa intervenção do sen. Omar Aziz, ele aproveitou a fala do médico que prestigiava a hidroxicloroquina como uma opção mais eficiente e segura, em relação a cloroquina, para informar, algo muito relevante. O Governo Federal não distribuiu a hidroxicloroquina, elogiada e defendida pelo médico. Ao contrário, o governo encomendou ao exército foi a cloroquina que apresenta maior toxidade e risco efeitos colaterais muito mais graves. Ou seja, utilizando uma “precisão judoca”, Aziz usou o peso da fala de médicos pró-governo, contra as ações do próprio governo.


Se tratamentos funcionam ou não, é outro debate, não cabe a esse editorial analisar. Pesquisadores e seus pares estão debatendo e chegando a conclusões e essas conclusões precisam ser debatidas, mas com um plenário esvaziado pela oposição, não há contraponto, não há debate, não há argumentação possível.


Entendo que convidados em rede nacional, em uma sessão transmitida ao vivo, sem necessidade de falar a verdade, não é razoável, mexe com eventuais vaidades, compromissos e oportunidades. Não é bom para a CPI, não é bom para o país, não é bom para ninguém e muito menos para o debate, mas uma vez ocorrido, o debate não pode ser esvaziado por um lado, sob o risco de discursos errôneos repercutirem sem nenhuma oposição, sem reação.

Protestos de 19 de junho esquecem lockdown e gastam mobilização pedindo um improvável impeachmente e a já presente vacina. | (FOTO: NELSON ALMEIDA/AFP) / Reprod. Carta Capital

Ontem, 19 de junho, milhares de pessoas foram às ruas, a despeito da pandemia, da 3ª onda e do risco iminente da difusão das novas variáveis do vírus. Com muito voluntarismo, líderes ocuparam microfones com discursos inflamados e dispersos que vão desde o impeachment, mesmo que todos saibam que é pouco provável que aconteça em tempo hábil para controlar a pandemia ou melhorar algo já que câmara e senado estão regados de emendas parlamentares; com muita força também ecoam gritos e cartazes pedindo a vacinação da população, algo que daqui para frente acontecerá por osmose, já que os governadores já entenderam a importância, ainda assim, matematicamente falando, o tempo necessário para vacinar 70% da população, é um tempo que implica em mais algumas dezenas de milhares de mortes; e pedem pelo aumento do auxílio emergencial.


Esse voluntarismo de juntar as massas e provar que o bom senso está mais mobilizado que os "motoqueiros fantasmas" comparando fotos, além de ocupar um espaço precioso do debate, ainda desvia a atenção da única saída plausível, viável e humana. Em uma pandemia tão grave talvez não fosse o melhor momento para esses protestos acontecerem, mas já que estão acontecendo, o único grito razoável e capaz de salvar vidas no curto prazo e melhorar a situação epidemiológica é o grito por lockdown, por um fechamento completo das cidades, com grande ampliação do auxílio emergencial para suportarem as famílias por um período considerável.


Qualquer ação diferente do auxílio emergencial digno e do lockdown, é puro voluntarismo eleitoral, o momento exige parar tudo, não mobilizar massas para um passeio no sábado nublado.