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Dra. Nise Yamaguchi na CPI da Covid-19. Saiba como foi

Sen. Otto Alencar enquadra Dra. Nise Yamaguchi: “A sra. Não sabe a diferença entre vírus e protozoário... o plenário está cansado de médico audiovisual”

Dra. Nise Yamaguchi participa, como convidada, da CPI da covid-19 em 01 de junho de 2021;

A Dra. Oncologista Nise Yamaguchi recebeu uma verdadeira aula magna sobre o Sars-Cov-19, o vírus que causa a doença conhecida como Covid-19.


Em sua participação na CPI, foram muitos os momentos de exaltação dos senadores contra a postura da médica que, em momento nenhum demonstrou querer colaborar para as investigações da CPI. Como se a participação dela na CPI, fosse uma palestra em um congresso de medicina, a doutora ignorou recorrentemente os fatos questionados e recorreu a longos discursos dispersos e alheios às questões objetivas postas, que, estava protegida pelo direito ao silêncio e até à mentira, se achasse conveniente, já que não estava ali na condição de testemunha, nem investigada, mas sim convidada.


A convidada foi perguntada, por exemplo, sobre quantas vezes ela esteve com o presidente Jair Bolsonaro, mas se esquivava de dizer a quantidade de vezes, para responder coisas como o currículo dela e a pro atividade que teve em apoiar outros governos.


O senador e relator da CPI da Covid-19, Renan Calheiros prosseguiu afirmando ter em mãos pelo menos 6 registros de visitas da Dra. Nise à sede do governo federal. E então perguntou:

“Como eram feitos os convites para essas reuniões?”

A doutora inicia a resposta:

“Foram feitos convites espontâneos com relação às reuniões...”

Renan interrompe:

“Como eram feitos, qual era o meio utilizado? Eram telefonemas, eram e-mails? Como eram feitos esses convites?”

Dra. Nise, responde:

“Eram comunicações telefônicas, comunicações entre as pessoas interessadas, eu realmente nunca tive uma formalização de participação em comitê de crise nenhuma”

E assim falou sobre um eventual comitê de crise que sequer estava sendo questionado. Vale lembrar que outros depoentes da CPI, como o ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, já disseram à CPI, na condição de testemunhas, ou seja, obrigados a dizer a verdade, que o presidente Jair Bolsonaro possuía um gabinete de aconselhamento paralelo.


Aparentemente cansado das mais de 4 horas de depoimento improdutivo, descompromissado e, portanto, quase inútil, o senador Otto Alencar começou os 15 minutos de interrogatório, dos quais tem direito para iniciar uma abordagem sobre a importância dos testes pré-clínicos e clínicos em pacientes antes de empregar certos medicamentos que causam alteração cardíaca no tratamento de pacientes com Covid-19.


Com uma pergunta retórica, ou seja, aquela cuja resposta já é de domínio do inquisidor, mas que é feita apenas para fins de explanação, ele perguntou:

“Para a oncologia a senhora usa estudos pré-clínicos e clínicos, e para o caso de Covid não usa? Se a senhora usou, fez os exames pré-clínicos eu quero conhecer todos os nomes, que a senhora fez o exame pré-clínico [SIC], in vitro, em camundongo e as quatro fases do exame clínico da hidroxicloroquina em pacientes.”

A Dra. Nise, como de costume nas quatro horas passadas de CPI, foi fazer uma abordagem mais longa da questão:

“A hidroxicloroquina tem sido utilizada há mais de 80 anos, sem necessidades de exames clínicos...”

O senador Otto interrompe novamente e ressalta:

“para outras doenças, minha senhora. Para outras doenças, não para covid-19. Usado para Malária, para Lúpus, para artrite reumatoide...”
Senador Otto Alencar protagonizou o momento mais emocionante da participação da Dra. Nise Yamaguchi, na CPI da covi-19

A médica, que escapou da maioria das questões, parecia, por outro lado, muito determinada a reafirmar que estava certa sobre a prescrição do uso de cloroquina para os pacientes, ato registrado em diversas participações em entrevistas nacionais, onde a doutora se colocava como uma especialista sobre o tema, recomendando o tratamento precoce, porém sem nenhuma comprovação ou sequer estudo clínico ou científico.


Para rebater essas afirmações, o senador Otto Alencar que é formado em medicina, apresentou um estudo realizado pelo hospital Albert Einstein que cravou que o medicamento defendido pela oncologista, aplicado sozinho, ou em associação com a azitromicina, não traz nenhum resultado sobre pacientes com sintomas leves ou moderados, diferentemente do defendido pela médica. O estudo foi publicado em julho de 2020.


A sessão mais emocionante de embates não parou por aí. A médica que foi afastada dos quadros clínicos do hospital israelita Albert Einstein, por um infeliz comentário, sobre o qual ela já se retratou, comparando as medidas de lockdown, com a estratégia nazista de gerar medo em seus prisioneiros judeus durante o holocausto, havia afirmado no início da sessão da CPI, que o mal-entendido havia sido desfeito que ela clinicava sim, no referido hospital. O que foi corrigido pelo Senador Otto:

“Hospital Einstein, onde a sra. Trabalhou, a sra. Não tem mais contrato com o Einstein, a senhora pode internar um doente porque é um hospital que para quem trabalhou lá fica aberto, se a sra. Quiser internar um doente...
...Então aqui está um trabalho feito no Einstein em julho do ano passado, a senhora devia ter consciência (sobre o estudo), a não ser que a senhora, agora, que trabalhou no Einstein, pode dizer agora: - Olha eu não trabalho mais lá, então não concordo. Mas aqui está o trabalho...”

Desconfiado o senador, após reafirmar que a cloroquina não funciona para Covid-19, pergunta:

“Até porque, a senhora deve saber a diferença entre um protozoário e um vírus. A senhora sabe?”

Atrapalhada e buscando a resposta em uma pilha de anotações que a doutora levou para a CPI e, visivelmente desconcertada pelo questionamento. A Doutora ainda tentou abordar outros assuntos, antes da de responder à pergunta do senador e foi cobrada:

“Senhora, a senhora defina do ponto de vista orgânico do que é um protozoário e um vírus. Por favor, a senhora é médica, formada... Me diga, por favor, o que é um protozoário e o que é o vírus. A diferença entre um e outro, só isso.”

Finalmente a Dra. Nise foi direta:

“Os protozoários são organismos celulares e os vírus são organismos que têm um conteúdo de RNA ou DNA. No caso da covid...”

A médica é novamente interrompida:

“Não senhora, não senhora, tenha paciência. Não é bem assim não. A senhora não é infectologista, se transformou de uma hora para outra, como muitos no Brasil se transformaram em infectologistas e não é assim. Os protozoários são organismos mono, ou, unicelulares e os vírus são organismos que têm uma proteção proteica, capsídeo e, internamente, o ácido nucleico. Completamente diferente do que a senhora falou aí. A senhora não soube explicar o que é o vírus. Vírus não são nem considerados seres vivos. Então a medicação para protozoários, nunca cabe para vírus”

Levando a internet ao delírio, o médico e senador Otto continua:

“Por exemplo, doutora: Quando surgiu a H1N1, a ciência foi atrás de um medicamento antiprotozoário, ou antiviral?”
“Antiviral”

Responde a médica. O senador concorda:

“Antiviral, pois bem, não foi antiprotozoário”.

Esse diálogo que não acabou aqui, foi muito simbólico para a CPI da covid pois, evidencia um nível de conhecimento muito raso que tem sido utilizado para criticar e contrapor as descobertas científicas. Conhecimento tão raso, que impediu a doutora de responder por exemplo sobre a origem do vírus e quando foi a primeira epidemia causada pelo coronavírus.

“De médico audiovisual esse plenário está cansado de alguém que ouviu e viu; e não leu; e não se aprofundou; e não tem estudado. Eu falo para a senhora porque desde começou essa doença eu tenho lido tudo sobre essa matéria, tudo. E não preciso ler para ver, não.
A senhora nem sabe quando começou a primeira manifestação do coronavírus no mundo e como foi essa manifestação, então a senhora não poderia de jeito nenhum estar debatendo um assunto que não era do seu domínio. Isso não é honesto doutora. A medicina e a ciência querem honestidade, verdade, integralidade, capacidade intelectual, científica... para dissertar a respeito de uma doença tão grave como essa, que muitos médicos e infectologistas ainda não dominam”.

Enquanto de um modo geral, os internautas vibravam com a participação do senador Otto Alencar, outras pessoas se dividiam opinando sobre o machismo e até arrogância do senador, mas para quem assistiu o ataque foi tão nítido, quanto a pouca vontade da depoente convidada em contribuir para as investigações. Porém, talvez não tenha sido um ataque contra a médica, mas sim, contra toda a ala negacionista de pessoas que têm colocado a saúde das outras em risco, seja indicando remédios ineficazes e perigosos para a saúde da população, seja ignorando as medidas de isolamento e disseminando o vírus na sociedade.