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Quantas mortes são aceitáveis?

Se estivéssemos em meio a uma guerra, esse assunto já teria sido levantado. Chegou a hora de nos questionarmos: quantas pessoas aceitamos perder contra a Covid-19?

Porque se uma meta não for imposta, aparentemente, o desastre não terá fim.

centenas de covas abertas, uma ao lado da outra, divididas por poucos centímetros de terra.
Foto: Andre Penner/APimages | Cemitério da Vila Formosa em São Paulo. Até 80% das pessoas que vão para a UTI com COVID-19, vão a óbito.

Em 2015 foi percebido que a epidemia de Zika vírus, espalhado pelo mosquito, “Aedes aegypti”, que também é responsável pela transmissão do vírus da dengue e da chicungunha, foi responsável por uma consequência gravíssima. Uma das principais sequelas da doença, fazia com que as mulheres infectadas com o vírus passassem o vírus para seus fetos e isso fez milhares de crianças nascerem com microcefalia, uma má formação do cérebro e do crânio. A tragédia só não foi maior porque o vírus não era transmitido pelo ar como o Coronavírus é.


A COVID-19, por outro lado, é uma doença ainda muito nova e pouco se sabe sobre as sequelas deixadas por ela. Porém, o pouco que se sabe deveria ser o suficiente para que cuidados especiais fossem tomados como um lockdown rígido e prolongado com suporte econômico para toda a população e objetivar o fim da transmissão doméstica do vírus e não para brincar com os percentuais de leitos disponíveis.


Impossível de “Controlar”. Temos que acabar com a transmissão

Transportes públicos pelo Brasil inteiro permanecem lotados, propiciando o crescimento da taxa de expansão por todo o estado, graças as conexões de transportes intermunicipais | Foto: Reprodução Rede Brasil Atual

Sem meias palavras, falar em “controlar” a transmissão é um linguajar “burro” ou mal intencionado. Uma das falas prontas de pessoas que ainda não entenderam o que é a pandemia de covid-19, uma doença cujo vírus é transmitido pelo ar com uma propagação nunca vista na história recente do mundo. Dito isso, é simplesmente impossível controlar partículas que se espalham pelo ar, prova disso são os cheiros, não dá para jogar “freeco” no mundo, é impossível controlar a propagação do cheiro, tal qual é IMPOSSÍVEL controlar a propagação do Sars-Cov-2, um vírus até 200 vezes menor que um espermatozoide, capaz de flutuar no ar e pode infectar uma pessoa atravessando suas máscaras e até pelo contato com os olhos.

Imagem: Dossiê etc | Um espermatozoide pode ser até 200 vezes maior que um vírus Sars-Cov-2. Essa informação mostra que bem como não se usaria tecidos normais como método contraceptivo, não se pode recomendar máscaras de tecidos como se fossem EPIs suficiente para manter o funcionamento das cidades. O país precisa parar.

Abaixo, esse editorial cita três excelentes motivos para que a transmissão do vírus seja combatida e não “administrada”:


Taxa de mortalidade das UTIs:


É um fato de consenso científico: de 50% a 80% de todas as pessoas que ficam em UTI para tratar sintomas graves da Covid-19 vão a óbito. Entendendo a frieza desses números, esse editorial convida a um exercício de imaginação:


Te convidam para atravessar uma ponte em que cada 10 pessoas que tentam atravessar, 8 morrem. Você iria para essa travessia?


Se em um jogo de futebol, em média, 18 dos 22 jogadores morressem em todas as partidas, os jovens continuariam desejando tanto se tornarem o Neymar?


Se o futebol ou uma ponte representassem esse risco, obviamente, a sociedade clamaria pelo fim dessas atividades, pelo desmonte da ponte; uma doença que leva 8 de cada 10 pessoas a óbito em um período que varia de 5 a 30 dias, não deveria ser uma situação tolerada, deveria ser uma situação a ser combatida até sua extinção total. Tal como feito em países como Austrália, Nova Zelândia, China, Vietnã etc.

Foto: Felipe Dana / AP | Entre o final de março e começo de abril, UTIs de praticamente todos os estados marcaram lotações em taxas acima de 90%.

Dos mais de 30 mil internados em UTIs no Brasil com a COVID-19, algo entre 10 mil e 18 mil, com certeza, morrerão por não conseguirem se reestabelecer plenamente dos males causados pela doença.


Sequelas graves:


Tudo bem. você é valente, topou atravessar a ponte da morte depois ainda jogou uma pelada mortal com o Felipe Melo, Veron e Pepe, saiu vivo e correu para o abraço no meio da pandemia... Bom, então você descobre que para voltar para casa, depois de atravessar a ponte, você ainda precisa passar por um caminho, um bosque enorme e mortal no qual 25% das pessoas morrem antes de conseguirem voltar para suas velhas rotinas. Das pessoas que reagem e recebem alta hospitalar, 25% (um em cada quatro) morrem em até 6 meses por sequelas.


Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e senso de autopreservação, se arrependeria de ter aceitado atravessar aquela primeira ponte. Isso porque, esse “caminho da morte” acaba com 6 a 9 em cada 10 que passam por esse desafio... 9 em 10... N O V E de D E Z... 9/10... só sobrevivem de um a quatro pessoas, todas as outras morrem.


Mas, claro, ninguém precisa se assustar, por enquanto é “só esse” o problema, pode ser que no futuro as coisas piorem mais um pouco. Isso porque estudos revelam maior propensão a diabetes em pacientes que tiveram covid e revelam que fígado, intestino, sistema nervoso, coração e pulmão podem sofrer danos sérios e de longa permanência. Apenas isso já deveria gerar algum tipo de preocupação com a sobrecarga do sistema de saúde no acompanhamento desses casos pós-pandemia, casos que não existiriam, não fosse as dimensões que a pandemia tem tomado. Porém, tudo que já é ruim, ainda pode piorar. O ritmo de propagação da doença provavelmente fará com que novas variantes ainda mais severas e capazes de deixar sequelas mais graves possam surgir.


Imagine, por exemplo, uma variante que tenha os efeitos do “Zika vírus” nas gravidas e com a velocidade de contágio do Sars-cov-2. O que faríamos? Qual seria o impacto disso para o país?


Economia da fome:


Nosso país ainda não teve seu solo devastado por guerras e tampouco teve crises graves de desabastecimento. A miséria atravessa gerações, mas essa classe média atual não conhecia o real sofrimento. Até agora...

Durante esse show de incompetência generalizada dos governantes – lê-se: prefeitos, governadores e presidente. Incluindo as respectivas casas legislativas que deveriam fiscalizá-los e agir em caso de omissão do executivo – mais de 8 milhões de brasileiros perderam seus empregos. Na primeira onda da pandemia, ainda que, tardiamente o governo federal, acuado pela pressão parlamentar, pagou R$ 600 de auxílio emergencial que depois foi reduzido a R$ 300 e repentinamente a ZERO, como se a crise tivesse sido encerrada. Pior do que o socorro aos cidadãos, através do auxílio, foi o socorro às empresas, com créditos em pequenos volumes e muita burocracia em operações de crédito geridas, acredite, por entidades privadas que possuem claro conflito de interesse em relação aos créditos de baixo juros.


O resultado é que a crise se agravou, o ritmo das mortes acelerou agressivamente na segunda onda e nada foi feito para contê-la.


Em ritmo lento, o Brasil ainda não imunizou nem 10% da população nacional e já começam a faltar vacinas para aplicar as 2ª dose nas pessoas que tomaram coronavac. Nesse ritmo a vacinação poderá levar mais de um ano para ser concluída.

Diversos países já mostraram que é possível conter e praticamente “erradicar” o vírus em um esforço nacional onde apenas a indústria essencial e o campo continuem funcionando normalmente. Custa caro, mas com certeza mais barato do que sustentar essa crise, com essa quantidade de perdas por mais um ano. A economia não vai se recuperar se continuarmos fingindo que a vacinação resolverá tudo. Não resolverá, não em tempo hábil.


E é bom, a partir pensar em esforço de guerra, porque até para guerras, existe um cálculo de “baixas aceitáveis”, todos sabem que infantes são enviados para a morte nas guerras, mas existe um número de baixas aceitáveis e eu tenho certeza de que se o Brasil, em uma eventual guerra, perdesse 390 mil soldados, o Brasil faria um real esforço nacional em prol da guerra.


Sem gás, sem comida, sem trabalho, sem esperança, sem dinheiro, sem moradia... Onde vamos chegar? Quantas perdas são aceitáveis?


UTI não é leito e respirador, UTIs são equipes especializadas e infelizmente isso não há em abundância no Brasil. Toda a força médica já está mobilizada no combate à pandemia, não adianta mais abrir leitos de UTI, simplesmente porque são quase inúteis se não tiverem equipes especializadas em quantidade suficiente para operá-los. Temos que parar tudo AGORA.

"Mas e se a população se revoltar?"

Renunciem... Renunciem, todos os prefeitos que não puderem ter o controle de suas cidades para salvarem vidas; renunciem, todos os governadores que não conseguirem convencer seus servidores a manter um fechamento rígido em seus estados. Somente o desapego do poder será capaz de mostrar para a sociedade a gravidade desse momento histórico. Porque o desapego ao cargo público, o desapego ao privilégio e o desapego ao poder, exige grandeza daqueles que se percebem inúteis no processo de combate do problema e é por isso que esse editorial não vai terminar pedindo para o presidente renunciar. Se há uma coisa que não existe em nosso atual presidente, é a grandeza. Bolsonaro é uma espécie de micróbio político.


O que não dá é para todos ficarem com medo de agir, reféns das próximas eleições, enquanto o vírus devasta esse "cortiço" que nós, romântica e esperançosamente, chamamos de país. Fechamento / Lockdown já! O Brasil está fôlego.


Esse editorial utilizou informações, dados e fatos relatados por:


Dossiê etc MedRXiv

El país Brasil Rede Brasil Atual

Viva bem / UOL

Folha de S. Paulo Super Interessante O Globo

AP Images G1