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Inflação: Você sabe como é calculada? Entenda...

IPCA, INPC, IGP-M... entenda de uma vez por todas o que é, como é calculada e o que a inflação pode mostrar sobre a economia de um país.

A inflação de agosto é a mais alta para o mesmo período, em 21 anos e a inflação segue se tornando uma preocupação para a equipe econômica do governo BOlsonaro, comandada por Paulo Guedes | Foto: Fabio rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

A inflação, como vários outros termos econômicos, é um indicador complexo de ser entendido e por muitas vezes é utilizado aletoriamente, sem ponderação nem explicações e nós, meros mortais, leigos no assunto, ficamos rendidos no meio de tantos números e vírgulas, que parecem pequenos, mas que podem dizer muito sobre a realidade de um país e as dificuldades de seus cidadãos.


Nas últimas semanas a Dossiê etc repercutiu a alta da inflação, explicando inclusive as principais pressões que o índice sofre e observações inusitadas como o impacto da elevação de juros gerando prejuízos ao ambiente de negócios e consequentemente sobre os preços. Isso fez com que alguns comentários pedissem uma explicação sobre como a inflação é calculada e é disso que o texto de hoje trata.


O básico, todos já sabem, inflação é um movimento de elevação do preço, assim como a deflação representa uma redução dos preços. Mas afinal, como se mede a inflação?


Séries INPC / IPCA (IBGE):


Existem vários indicadores de inflação, e alguns dos mais famosos são os calculados pelo IBGE.


INPC - Índice Nacional de Preço ao Consumidor:


Calculado e acompanhado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), é um índice que mede a inflação do consumo de pessoas/famílias com renda mensal de 1 a 5 salários-mínimos (R$ 1.100 a R$ 5.500); pessoas e famílias que tendem a gastar toda sua renda com itens básicos.


IPCA – Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo:


Com metodologia semelhante à do INPC, também realizado pelo IBGE, porém, mede a inflação sobre o consumo de famílias com renda mensal de 1 a 40 salários-mínimos (R$ 1.100,00 a R$ 44.000,00); esse é um índice muito mais falado, porque é considerado o índice oficial de inflação do país. Logo, quando falam em inflação no Brasil, geralmente se está falando desse índice.


Ambos os índices realizam pesquisas de preços mensais sobre produtos e serviços compreendidos em quatro macro categorias (Alimentação; Lazer e viagens; Serviços financeiros e padrão de vida; e Transporte) que compõem a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF). É a POF inclusive, a pesquisa que nos diz qual valor percentual uma família gasta com cada um desses itens, permitindo ao IBGE ponderar o aumento de preços de itens pontuais de forma a diluir seu impacto de acordo com o seu consumo médio pelas famílias de diferentes faixas de renda.


EXEMPLO: Quando produtos como o tomate ou o feijão disparam por questões climáticas e sobem acima de 50%, a inflação sofre pequenas alterações e nos faz pensar: como um aumento tão alto no preço de um alimento pode influenciar tão pouco no índice de inflação?

Com o fim dos estoques reguladores, o preço do arroz foi um dos que mais sofreu com altas repentinas nos últimos tempos | Foto: Alex Ferreira / Reprod. Diário do aço

A resposta é simples: isso porque, apesar de o aumento dos itens serem altos, nós não gastamos toda a nossa renda somente em alimentação, muito menos somente nesses itens. Caso a alta for uma situação isolada, o impacto não é grande no custo de vida total das pessoas. Porém, quando o motivo da alta de preços é, como no momento atual, a falta de um estoque e/ou política reguladora que privilegie as necessidades de consumo do mercado interno, além da flutuação cambial, então o preço de muitos itens sobe ao mesmo tempo, já que diante do encarecimento de um alimento, tendemos a buscar alimentos mais baratos para substituir, que não sofrem a pressão da exportação, mas sofrem a pressão do aumento concentrado de demanda.



Séries IGP-M / IPA-M / IPC – M / INCC-M (FGV):


O índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), diferente dos índices anteriores, é medido pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e, portanto, possui métodos diferentes de aferição.

Sua utilização é mais comum para corrigir contratos de empresas, aluguéis e prestação de serviços de um modo geral, já que leva em consideração além dos preços de produtos e serviços, o preço dos insumos de produção e matéria-prima de setores fundamentais do mercado, através de um cálculo que pondera três outros índices inflacionários:


IPA – M: Índice de Preços ao Produtor Amplo:

Esse é o principal índice, com peso de 60% no cálculo do IGP-M, e se baseia através da medição dos custos do setor produtivo, pois, se os custos sobem para o produtor, em mais tempo, ou, menos tempo – normalmente menos tempo – esse custo alcançará o consumidor final;

Tão grande quanto seu peso na equação do IGP-M, é a complexidade de sua composição. Em resumo, para o cálculo desse índice, são acompanhadas duas estruturas:


Estrutura Segundo Origem:


Produtos Agropecuários: Lavouras temporárias, permanentes e pecuária.


Produtos Industriais: Considera-se aqui a Indústria extrativa (carvão mineral, minerais metálicos e não-metálicos) e Indústria de transformação que são as fábricas que transformam a matéria-prima em insumos para a indústria e cobre 20 setores como alimentos, artigos do vestuário e produtos derivados de petróleo.


Estrutura por estágio de processamento:


Bens finais: com subitens como Bens de Consumo (Alimentação, combustível, bens duráveis e não-duráveis) e bens de investimento (veículos pesados / máquinas e equipamentos).


Bens Intermediários: com subitens que contemplam materiais para manufatura; componentes para construção; combustíveis; lubrificantes para produção; embalagens e suprimentos.


Matéria Prima Bruta: Esse mede os itens não processados de origem agropecuária (comercializáveis, processamento industrial para fins alimentares e não alimentares) e minerais.


Para processar todas essas informações os preços são coletados diariamente no caso dos produtos de origem agropecuária (que sofrem interferências diárias por conta do clima) e mensalmente dos produtos industrializados (que têm uma previsibilidade de custo de produção mais estável).


Os dados são coletados pela FGV através de uma rede de 1.200 “produtores informantes” que passam aproximadamente 6.400 cotações por mês, referente a 340 séries de preços.

Somente após todo esse trabalhão de coleta, uma longa fórmula de cálculo com pesos que representem a importância econômica de cada item é aplicada sobre os valores coletados, resultando naqueles índices percentuais de números e vírgulas.


IPC – M: Índice de Preços ao Consumidor:

Esse índice é o segundo com maior peso para a composição do IGP-M, representando 30% do cálculo e sua importância é representada por sua capacidade de captar de imediato os preços que o consumidor já enfrenta em sua rotina de consumo de produtos, quanto nos serviços;


Apesar de ter semelhanças com os índices medidos pelo IBGE (IPCA e INPC), no caso do IPC-M a medição é realizada apenas em sete capitais do país e abrange famílias com renda entre 01 e 33 salários-mínimos.


Ao todo a pesquisa mede mensalmente o preço de 338 subitens relacionados a 85 itens, de 25 subgrupos, separados em 8 grupos que formam o índice geral, com pesos em consonância com a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) realizada pelo IBGE em 2008/09.


INCC – M: Índice Nacional de Custo da Construção:

O INCC é um importante índice na composição do IGP-M porque é o índice que mede a evolução dos preços que interferem no preço da construção, das reformas e, consequentemente, dos aluguéis. Ponderada no cálculo sob o peso de 10% na composição do IGP-M.


Para entender a dinâmica de inflação do setor da construção, são coletados preços sobre materiais, equipamentos e serviços relacionados à estrutura (ex.: vergalhões e concreto), instalações (Ex.: elétrica e hidráulica) e acabamento (Ex.: piso e azulejos), além do custo de mão-de-obra.


Com posse desses dados, a FGV preenche planilhas de orçamento analítico de empresas de engenharia e simula diferentes tipos de construção, desde as mais simples (H1), casa com sala, 1 quarto e demais dependências com medida média de 30m²; até construções mais complexas (H12), representado por um edifício habitacional de 12 pavimentos, com área média total de 6 mil m².


De acordo com a variação do custo de construção desses modelos, o índice consegue refletir o cenário de preços do setor.



Períodos e acumulados:


Os índices de inflação, para fazerem sentido, precisam vir com um indicativo temporal, ou se fala em inflação mensal e nesse caso a comparação costuma ser com o mesmo período do ano anterior (ex.: setembro de 2021 x setembro de 2020), ou se fala em inflação de períodos.


A meta de inflação fixada pela equipe econômica do governo federal, diz respeito ao período de um exercício fiscal (ano fechado de janeiro a dezembro), já que nesse período estão compreendidas todas as sazonalidades que podem afetar os preços de determinados produtos, como entressafras (crescimento da lavoura), estiagem (seca) e picos de demanda (natal, páscoa, férias etc.).


Porém, não é necessário esperar o final de um exercício fiscal para sabermos os rumos que a economia toma, para isso é observado o acumulado de 12 meses, que considera os meses passados do exercício atual (2021) e os meses que ainda não passaram, são substituídos pelos meses correspondentes do ano anterior. Nesse caso, como 2021 só tem dados até agosto, a projeção é completada com os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro de 2020, de forma a verificar o andamento da inflação e, por outro lado, orientar o governo a tomar medidas que devolvam a tendência ao centro da meta.


Existe também a inflação acumulada do ano, mas ela pouco diz sobre a economia, porque o número sempre será parcial. Há quem goste de usar em comparação com a mesma parcial do ano anterior para comparar tendências de altas ou de baixas, mas essas tendências só dão um retrato fiel no período final do ano, quando não há mais espaço para manobras fiscais capazes de reverter o cenário;


Meta de inflação: O piso, o teto e o centro...


A meta de inflação é sempre muito importante, porque se a inflação subir demais, pode gerar um custo muito alto no orçamento público, já que salários terão de ser reajustados para repor o poder de compra dos brasileiros e isso gera um aumento da folha e do custo da previdência; se subir pouco, ou pior, reduzir, pode indicar retração econômica e os baixos preços podem representar uma tentativa do mercado aquecer a demanda (incentivar a compra por meio de descontos) ou até, representar uma coisa boa, um excesso de estoques devido a safras acima esperado, embora seja uma triste realidade a destruição de safras, para evitar que o preço dos produtos caia.

Ao invés de retomar a regulação dos estoques para o consumo interno, o Governo Federal, agora com o Banco Central "independente", tem tentado combater a inflação com a alta de juros, porém sem efeito até agora, já que a inflação não decorre da alta de consumo e os juros altos agora são mais eficazes em frear a retomada econômica, do que frear a inflação que não para de crescer. | Fotos: Wilson Dias / Agência Brasil

O Conselho Monetário Nacional (CMN), formado pelo ministro da economia (Paulo Guedes – banqueiro fundador do banco Pactual), o presidente do Banco Central (Roberto Campos Neto – trader/gestor de investimentos com 18 anos de banco Santander) e pelo secretário especial da fazenda (Bruno Funchal), definiu para 2021 uma meta de 3,75% de inflação (IPCA), entretanto, atualmente a inflação acumulada dos últimos 12 meses já chegou aos 9,68%, bem acima do teto (tolerância) de 5,25% e quase mais que o dobro da meta.


A seguir nessa tendência, na prática, quem ganha R$ 1.100,00 vive como se ganhasse R$ 993,52, porque essa diferença, a tal da inflação já comeu.


Quer saber como é calculado o valor da cesta básica e do salário-mínimo ideal? Acesse aqui.