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Vai piorar: Banco Central e o jogo da Selic

7ª alta seguida: independente desde fevereiro, BC deve enviar mais R$ 100 bi aos bancos e fundos de investimento, com as decisões de hoje no COPOM

Depois de dois anos de incertezas e muita tristeza com a pandemia, somos obrigados a ver a sociedade reabrindo e a economia, ainda assim, entrando em retração. O Fantástico, um dos folhetins mais importantes e assistidos da maior emissora do país, que outrora já teve de preencher sua grade com vídeos fofinhos de animais e até atrações como um mágico que revela os truques de mágica, hoje volta a ser invadido, tomado por matérias tristes como a do menino Gabriel que, em um lixão onde centenas de populares disputavam restos de comida que chegavam em caminhões de lixo, uma cena que nessas proporções o Brasil estava se desacostumando a ver, encontrou uma uma simples árvore de natal pequena e danificada, mas capaz de atrair a atenção, quase que por hipnose, do menino que compõe as estatísticas da miséria e da fome no Brasil. Por um momento sonhar foi mais importante do que procurar comida.


Afinal, como pode uma economia em pleno processo de retomada pós-vacinação, apresentar tantos índices ruins e, os poucos índices razoáveis, como aumento de faturamento em alguns setores e até mesmo o aumento de arrecadação de impostos, se darem muito mais pelo efeito da inflação sobre os preços, do que pelo aumento da quantidade de negócios. A Black Friday, o famoso dia de comprar “tudo pela metade do dobro” foi outro fiasco, mostrando que nem mesmo as “promoções” foram capazes de impulsionar um mercado cambaleante formado por milhões de brasileiros famintos. Com 5% de retração nos resultados, quando comparada com a mesma data de compras de 2020, com economia restrita, a Black Friday é apenas um aviso de que o pior ainda pode estar por vir.


No mesmo país das maravilhas, há também uma classe média endividada, ao todo, 63 milhões de pessoas estão em inadimplência e 75% das famílias possuem dívidas em alguma escala. Aqui é fácil cravar que é a classe média que está engordando esses números, porque os miseráveis, sequer têm direito e acesso ao crédito, nem para consumir, nem para morar e nem para investir em um negócio próprio. Em um país como o Brasil, dívida é quase um privilégio exclusivo da classe média. Privilégio dos juros exorbitantes.


Podemos creditar esse desastre econômico a dois fatores principais: o primeiro é mais óbvio, há um lunático no poder. Uma pessoa sem o menor preparo intelectual, que não serviria sequer para funções simples, imagina se tem capacidade de ser presidente de uma nação tão complexa quanto o Brasil. O presidente brasileiro é um peso inútil que atrapalha a retomada do país, sobre isso não há dúvidas.


O segundo fator é a prejudicial política econômica comandada por Paulo Guedes, que vê sua fortuna em reais aumentar, graças as suas aplicações em dólar, pouco transparentes, em paraísos fiscais onde, aparentemente, ele apenas especula com a desvalorização do real, moeda que ele mesmo controla a partir de suas políticas. Paulo Guedes e o Banco Central, independente desde fevereiro deste ano, já aumentaram os juros básicos (Selic), em mais de 300%, levando a meta da taxa de 2% em março de 2021, para 7,75% desde outubro e hoje, 07 de dezembro, o Comitê de Políticas Monetárias (COPOM), irá se reunir para decidir sobre um novo aumento que pode elevar a taxa de juros básica para mais de 9%.

Na tabela acima é possível notar a variação mês a mês do impacto da Selic, sobre o crédito para pessoas jurídicas e fixas. Em um ano, o crédito para pessoas jurídicas ficou 57% mais caro e 14% para pessoas físicas. Pesos superiores a inflação acumulada no mesmo período.

Sob a desculpa de conter a inflação, que apenas em outubro já avançou mais de 1,25%, contra um aumento de 1,16% em setembro, uma clara tendência de avanço da inflação, o presidente do Banco Central parece se sentir à vontade enriquecendo o setor para o qual ele trabalhou 19 anos. Pois, se por um lado, contra a inflação, Roberto Campos se mostra o mais ignorante dos presidentes do Banco Central, transformando juros em peso inflacionário, por outro ele é muito competente desviando a finalidade de mais 30 bilhões de reais por cada ponto percentual (p.p.) acrescido à taxa selic, um dos principais indexadores da dívida pública.


Isso significa que, por ano, o Brasil pagará 250 bilhões de reais a mais para os juros da dívida, apenas pelos 5 p.p. já adicionados até agora, se hoje as previsões de um aumento de mais 2 p.p. se confirmarem, mais 100 bilhões serão desperdiçados para esse fim, enriquecendo ainda mais banqueiros e megainvestidores que hoje detém os títulos da dívida pública.

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil, depondo na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado | Foto: José Cruz/Agência Brasil

É prudente que eu não opine sobre o caráter de Roberto Campos Neto, o presidente do banco central do Brasil, responsável direto por controlar a flutuação da moeda em relação ao dólar, mas que possui quatro contas offshore em moedas estrangeiras guardadinhas em paraísos fiscais, enquanto destrói a economia brasileira de mãos dadas com Guedes. Mas você que me lê, pode começar a pensar no adjetivo mais propício para um cidadão que transfere, com sua gestão independente, quase 250 bilhões dos cofres públicos para bancos e fundos privados.


Com 350 bilhões torrados por suas políticas desviantes, o Banco Central não conseguiu recuar nem 1% da inflação que assola o país, porém, com apenas R$ 13 bilhões de subsídio, o Banco Central teria pago 100% de toda a receita que a Petrobrás teve com venda de gás de cozinha no Brasil em 2020 e, apenas isso, um simples subsídio, já seria o suficiente para interferir e reduzir a inflação das famílias mais pobres. Os 350 bilhões que estão em jogo, sendo desviados para bancar o lucro dos bancos e salvar a rentabilidade dos fundos de investimento são, acredite, 10 vezes maior que o orçamento do Bolsa Família para todo o ano de 2021.


Para além dos desvios diretos de um dinheiro que poderia ir para investimentos no país e geração de empregos, o aumento da taxa Selic ainda cria um peso inflacionário, que assim como frete, se espalha pelo preço de tudo que consumimos, o motivo? Final de ano é quando as empresas mais buscam crédito, seja para reestabelecer estoques, pagar 13º salário e fazer investimentos para incremento de produção. Com juros 57% mais caros, tudo fica mais caro e a economia cambaleante tende a cair.