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Saudade da Guanabara

Estou com saudade da Guanabara. Aliás, saudade do Brasil, saudade de um Brasil onde o termo saudade era rima para samba, assim como “quero o ontem no amanhã”. Saudade de encontrar o mundo real, presencial. Mas vamos falar da saudade da Guanabara.

"Roda de Samba" - Carybé

Saudade daquele São Sebastião que ainda vivia na canção do Chico, na aura de quem fumava um Ary, cheirava Vinícius e bebia um Nelson Cavaquinho. Rio de Dolores, Larmatine, do Café Nice, Dalva, Herivelto, Chocolate e Ataulfo.


Saudade do Rio que merece o Rio, que conhece o Rio.


Saudade do bate papo na esquina, sem medo de que a conversa informal custe-me a vida.

Saudade de ver crianças correndo nas calçadas dos morros, sem medo de que uma bala não perdida, mas sim, covardemente direcionada, execute seus sorrisos pueris.

Ultimamente acredito que, para todo brasileiro com um pouco de sensibilidade, a nostalgia não paga mais entrada, e nem sabemos mais se o que esperamos é futuro, ou ilusão. Estamos exaustos dessa devastação, dos crimes que rolam contra a nossa liberdade de sonhar.


Saudade da Lapa, aquele bairro querido que foi o berço de boêmios seresteiros, que abrigou o Café Nice - onde dizem que o samba nasceu batido em uma caixa de fósforo. Enquanto alguns insistem que o samba veio do morro, outros se calam para não discutir, acreditam piamente que jamais serão desmentidos. Afirmam inclusive que ali nasceu a primeira escola de Samba. Bons tempos em que a discussão se dava entre pessoas, e não facções, e, na pior das hipóteses, havia uma briga entre Miguelzinho e Camisa Preta, ou, até mesmo, um tiro de canhão que levava uma torre de igreja.


Bons tempos, e não faz tanto tempo assim que a lua só ia para casa depois de o sol raiar, e nós também. Passávamos a noite no bate papo, no disse-me-disse, ah que saudade me dá. O samba varava a madrugada.


Já imaginou um tempo em que, num mesmo canto, batucavam João de Barro, Pixinguinha, Almirante e Noel? Puxa, devia ser bom à beça.


Infelizmente, o Rio que temos hoje não merece o Rio, não conhece o Rio. Só causa horror a quem passa.


E diante de tua imagem, tão castigada e tão bela


É preciso plantar novos brotos no Engenho de Dentro


Para a alma não se atrofiar


Oh Meu Deus do Céu, como se faz urgente e imprescindível trocar o mercado da fé, que traz seu poder nas flechas da milícia, que perfuram São Sebastião, por uma cidade tranquila, sarada a cada ferida. Que tudo se transforme em vida.


Saudade do Rio em que, até o amor doía em paz.

 

Esse texto citou:


Saudade da Guanabara - Audir Blanc

Saudades de Mim – Maysa


Rio Antigo (Como nos velhos tempos) – Nonato Buzar e Chico Anísio


Café Nice – Wilson Batista


Memórias do Café Nice – Nestor de Holanda


História da Lapa – Wilson Batista


Querelas do Brasil – Aldir Blanc e Maurício Tapajós


Sebastian – Gilberto Gil e Milton Nascimento


Carta ao Tom 74 – Vinicius de Moraes e Toquinho


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