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Análise sobre a análise: O que diz o polêmico texto sobre Marília Mendonça?

Como um texto biográfico de 20 parágrafos, dos quais, 16 eram completamente elogiosos, acabou se tornando uma ofensa imperdoável para boa parte dos fãs da cantora mais amada do Brasil.


No último dia 05 de novembro o Brasil se viu incrédulo com as notícias que tomaram conta da TV e da internet. Marília Mendonça, um dos maiores ícones da música brasileira havia falecido em uma queda de avião na cidade de Caratinga-MG, onde faria uma apresentação.


Estranhamente, o assunto mais comentado desde sua morte, não foi sobre todo o sucesso que ela fez em vida, mas sim sobre uma análise biográfica escrita por Gustavo Alonso e publicada no jornal Folha de São Paulo. O texto reverencia a carreira da cantora, a compara, sempre positivamente, com alguns dos maiores nomes da música brasileira e mundial.


Para analisar o texto ponto a ponto, compilei o texto completo e separei todo ele por parágrafos que antecedo com meus comentários. O texto em questão éa análise entitulada: “Marília Mendonça, rainha da sofrência, não soube o que é fracasso” e aqui já começa minha análise. Com esse título, o texto fez os fãs pensarem que se tratava de uma coroa de flores, mas o texto todo está mais para uma biografia do que para uma homenagem propriamente lida e isso pode ter frustrado alguns fãs que, nesse momento de luto, talvez não quisessem saber a opinião do autor sobre o mercado da música sertaneja, mas acho que o que afundou a reputação desse texto, foi o fato dele ser fechado para assinantes, o que fez com que circulassem largamente na internet, apenas 10% do texto (2 parágrafos de 20).


Acompanhe e tire suas próprias conclusões depois de ler o texto completo.


Observação:

Daqui em diante, em negrito, estão assinaladas as minhas análises sobre o texto. Já a reprodução do texto original está sem negrito e com alguns trechos sublinhados.

Para conhecer as músicas citadas ao longo do texto, basta clicar sobre o título, linkamos como youtube oficial da cantora.


1º Parágrafo:

O autor introduz o leitor no texto, na intenção que ele tem de mostrar que a vida de estrela não é fácil como parece, é um preparativo para as críticas que viriam. Para isso ele usa o post da própria cantora nas redes sociais:


O último posto do Instagram de Marília Mendonça foi um vídeo em que ela brinca sobre a diferença entre a expectativa e a realidade de se fazer shows em Minas Gerais. O vídeo abre com ela se encaminhando para o avião, com mala e violão a tiracolo. Sua expectativa – pão de queijo, cachaça, queijo canastra e feijão tropeiro. Em seguida, a realidade da estrela da música nacional – a chata viagem, com malhação e alimentação insossa e dietética.


2º Parágrafo:

O autor contextualiza o motivo de escrever aquele texto, inclusive reunindo outros casos semelhantes:


Não era possível cogitar que a realidade seria tão triste. O avião em que Marília Mendonça voava caiu na tarde desta sexta-feira em Piedade de Caratinga, em Minas Gerais. Mendonça não sobreviveu. Aos 26 anos, seu nome se une a outros da música que morreram tentando ir “aonde o povo está” – Gabriel Diniz, Mamonas Assassinar, Carlos Gardel, Ritchie Valens, Bussy Holly, Glenn Miller, Otis Redding, John Denver, Stevie Ray Vaughan.


3º Parágrafo:

O autor começa a situar a cantora em seu merecido lugar de destaque no topo da carreira, para isso compara a trajetória de Marília a outros nomes da música sertaneja que também já partiram desse plano.


A morte no auge aumenta a dor dos fãs. Diferentemente de Gabriel Diniz, morto em 2019, a carreira de Mendonça tinha bem mais do que um grande sucesso. E, ao contrário de Cristiano Araújo, morto em trágico acidente automobilístico em 2015, a trajetória de Mendonça não estava mais em ascensão. Ela já havia atingido o topo. Mendonça era a rainha da música brasileira, a rainha da sofrência.


4º Parágrafo:

O autor do texto continua a contextualizar todo o inacreditável sucesso da cantora. Nesse ponto ele mostra como, em números, a cantora supera outros nomes tão poderosos e mostra como ela agrada a Gregos, Troianos e gênios da música.


Marília Mendonça tinha mais seguidores no spotify do que os Beatles. São 36 milhões o número de seguidores no Instagram, 4 milhões a mais que a poderosa ex-BBB Juliette. Mais do que os números, Mendonça mudou a face da música sertaneja, hoje a grande música popular do Brasil. Honra máxima na música brasileira, Mendonça recebeu duas citações de Caetano Veloso em seu mais recente disco. Agora, na sua morte, Lula – e também Bolsonaro – publicou um post se declarando sentido pela morte da cantora.


5º Parágrafo:

O autor credita à cantora a criação de um subgênero do sertanejo e a reconhece como maior nome do gênero mais tocado no país.


Mendonça faz parte da corrente que se convencionou chamar de feminejo — artistas mulheres que tomaram para si o ato de cantar em primeira pessoa os dramas compostos em grande parte por elas mesmas, como Maiara e Maraísa, Simone e Simária, Naiara Azevedo e Paula Mattos. Mas sobretudo Mendonça. Ela era incontestemente a artista mais reconhecida não só do subgênero, mas de toda a música sertaneja há alguns anos.


6º Parágrafo:

Aqui, na minha opinião está o ponto alto do texto, pois no auge da polêmica, o autor compara Marília Mendonça a outros grandes sucessos da música como Beatles, Roberto Carlos, Elis Regina. E a comparação Marília está acima deles.


Marília não conheceu o fracasso. Isso é raro, especialmente entre artistas iniciantes. Roberto Carlos gravou discos sem sucesso algum antes de se tornar rei. Elis Regina gravou três discos sem qualquer repercussão de seu enorme talento. João Gilberto cantou com vozeirão sem nunca ter tido sucesso antes de se tornar um dos criadores da bossa nova. Os Beatles foram rejeitados pela gravadora Decca antes de se tornarem o mito que se tornaram. Zezé Di Camargo penou na carreira em dupla e solo, antes de acertar com o “É o Amor”.


7º Parágrafo:

Aqui diminuem as reverências e Gustavo, o autor, adota um tom mais biográfico, ele passa da exaltação para a narração de fatos, aliás, fatos muito mais interessantes do que a polêmica que se levantou em torno do texto. É aqui também que o autor esboça uma crítica à indústria da música sertaneja.


Mendonça foi precoce. Aos 12 anos já compunha. Aos 15, um conhecido a apresentou a Wander Oliveira, do escritório da Work Show, que se tornaria seu empresário. Oliveira gostou do que ouviu, mas achava que dava para melhorar. Contratou a jovem para fazer parte do batalhão de compositores que trabalham na lógica industrial dos escritórios sertanejos de hoje em dia. Nas palavras de Mendonça, “nos tornamos abelhas-operárias”.


8º Parágrafo:

Gustavo Alonso, a partir desse ponto adota um tom crítico bem nítido e direciona esse tom para o mercado da fama ao qual ele se refere como “showbusiness”.


Ela se tornou então proletária da canção. Além de viver a desigualdade do showbusiness na pele, conheceu a relação machista de perto. Suas músicas eram fornecidas a vários artistas homens — “Calma” foi cantada por Jorge e Mateus; Cristiano Araújo cantou “É com Ela que Eu Estou”. Wesley Safadão, Henrique e Juliano, Matheus e Kauan, João Neto e Frederico também cantam canções suas. Segundo sua parceira Maiara, Ninguém acreditava no meio que mulher virasse sucesso”.


9º Parágrafo:

Resumo rápido de como ela passou de compositora a cantora


Começou a ganhar dinheiro próprio aos 17 anos, quando pingaram em sua conta corrente os primeiros direitos autorais. Até os 18 foi só uma compositora requisitada. Desde que começou sua trajetória de cantora, arrolou uma sequência de sucessos que a tornaram um fenômeno.


10º Parágrafo:

Aqui começa o fim do texto. É a partir daqui que o texto foi largamente compartilhado. Faz uma observação quanto a qualidade vocal da cantora, no entendimento dele — com a qual eu discordo — e mostra que ela era uma contradição em um meio tão apegado a padrões estéticos e vozes masculinas.


Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso — Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha).


11º Parágrafo:

Nesse parágrafo acontece o choque entre o registro biográfico de uma característica física da cantora e a cultura popular que considera a palavra “gorda” a uma ofensa, muito mais do que uma característica natural ou biotipo da pessoa. O mais curioso é que a crítica parece direcionada às exigências e padrões impostos pelo mercado e não necessariamente ao corpo da cantora. Mas gordura no Brasil é palavrão e o preconceito internalizado na cultura popular falou mais alto do que a crítica:


Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a muitos. Ela se tornava também bela para o mercado. Mas definitivamente não foi isso que o Brasil viu nela.

12º Parágrafo:

Depois de apontar que o showbusiness pressionava a cantora para mudar o próprio corpo, sem necessidade, já que o sucesso veio antes disso, o autor retoma a reverência à artista e mostra com vários de seus sucessos o que foi que o Brasil viu nela, mostrando os sucessos dela eram fora dos padrões:


Nascida em Goiás, Mendonça era a cara do Brasil. Mas de um Brasil que mostrava novas caras a partir de meados dos anos 2010. Ela cantou a versão da mulher traída, como o fez em seu maior sucesso, o bolerão onipresente “Infiel”. Marília Mendonça cantou a amante em “Como Faz Com Ela”, esse personagem tão discriminado numa sociedade em que o matrimônio ainda é visto como algo sagrado — “Tudo o que eu preciso / é saber se você faz amor comigo como faz com ela / se quando beija morde a boca dela / Fala besteira no ouvido, como faz comigo”.


13º, 14º, 15º e 16º Parágrafos:

O autor continua fazendo um favor a leigos como eu que não tinham noção da quantidade de sucessos e da profundidade que trazia em suas letras. Ela foi disruptiva e, aparentemente, não era nada convencional nas histórias que suas letras narravam.


Em “Amante Não Tem Lar”, Mendonça vestiu em primeira pessoa a renegada. Com Felipe Araújo, contou “Amante fiel” — “Amante fiel / Esse nosso compromisso não depende de um anel / Somos por esse nosso relacionamento aberto / Nem preciso me chamar; eu vou estar sempre por perto”.


Longe de ser convencional, Mendonça cantou também a prostituta em “Troca de Calçada”. “Se alguém passar por ela / Fique em silêncio, não aponte o dedo / Não julgue tão cedo / Ela tem motivos para estar desse jeito / isso é preconceito / Para ter o corpo quente, eu congelei meu coração / Para esconder a tristeza, maquiagem à prova d´agua / Hoje você me vê assim e troca de calçada / Só que amar dói muito mais do que o nojo na sua cara”.


A prostituta já havia sido personagem abordada em diversas canções da música brasileira. Da Geni de Chico Buarque à Bailarina de João Mineiro e Marciano e à amante por quem Odair José ia largar tudo em “Eu vou Tirar Você desse Lugar”. Mas quando alguém cantou em primeira pessoa sua voz?


Ao narrar a vida das mulheres atuais, Mendonça também aderiu ao feminismo massivo que se espalha em diversas frente na sociedade brasileira. Em “Supera”, ela cantou afinada ao discurso de autoajuda da militância feminista atual, buscando “positivar” a mulher que deseja novos relacionamentos fortuitos. “Para de insistir, chega de se iludir / O que você tá passando eu já passei e eu sobrevivi / Se ele não te quer, supera.”


17º Parágrafo:

Depois de novamente comparar positivamente Marília com gigantes como Chico Buarque, e dar uma verdadeira aula sobre o estilo da cantora, no 17º parágrafo retorna com as críticas, mostrando que apesar de ter uma mente brilhante e a frente de seu tempo, o artista era podada em suas posições políticas por exigências do mercado e coloca ela como uma pessoa humana, cheia de acertos, mas que também tem suas contradições e que não tinha problemas em se desculpar.