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Um ensaio sobre a nossa morte

A morte é fascinante por si só. Um mistério que intriga a humanidade há milênios.

Bruno Covas (1980 - 2021); Eva Wilma (1933 - 2021); Paulo Gustavo (1978 - 2021)

A morte é como uma galáxia inalcançável, um ponto tão longínquo do universo que quando alguém finalmente consegue alcançar, jamais conseguirá voltar para contar como é.


Os povos antigos gastaram muito, muitos recursos mesmo, tentando desbravar a morte, ao passo que gastaram para entender como os astros se “organizavam” no céu.


De lá para cá mapeamos constelações e navegamos tendo-as como referência, entendemos o ciclo solar e criamos um calendário baseado nisso, 365 dias formam ano solar, ou seja, o tempo que leva para a terra dar uma volta completa em torno do sol, colocamos satélites em órbita, visitamos o satélite natural da terra, temos uma estação espacial orbitando o planeta, nos olhando lá de cima, enviamos um explorador espacial que já está a mais de 20 bilhões de quilômetros da terra, mas sobre a morte... tsc tsc tsc... Nada sabemos e sequer sabemos se há algo para descobrir.


Inspiração para músicas como a maravilhosa obra-prima de Paulo Coelho e Raul Seixas, “Canto Para Minha Morte”, que reflete sobre a forma da morte e seus mistérios, fala sobre as coisas que deixaremos de fazer quando a hora da morte chegar, “como aquela revista que guardamos, mas nunca mais vamos abrir”, ou sobre as ruas que nunca mais percorreremos. Ainda assim, alvo de muitos devaneios sobre sua origem e seu fim, a morte continua assim, invisível, intangível, inexplicável e alvo das mais deslumbrantes fantasias.


No antigo Egito, por exemplo, algumas das construções mais custosas da história, as pirâmides, nada mais são do que enormes “mausoléus”, uma arquitetura fascinante que não tem outra função, se não abrigar as câmaras funerárias de seus faraós que, mumificados, tinham no entorno de seus leitos de morte seus órgãos, cuidadosamente preservados em cerâmicas; paredes cobertas de inscrições que seriam como “um currículo” do morto, que o desse passagem para a vida eterna, algumas “instruções” para que o faraó encontrasse o caminho e tudo o que ele pudesse precisar nessa “travessia” como barcos, tronos, armas, vestes e muito, muito ouro.


Infelizmente, tudo o que conseguiram com tamanho esforço foi gastar recursos valiosos para o império, atrair saqueadores, que roubaram dezenas de túmulos e empobrecer seu povo que, em boa parte, era escravizado na realização dos “sonhos póstumos” dos Faraós.


Estranhamente a morte exerce um grande poder sobre nós, sobrepondo-se ao poder da vida. Para não morrer somos capazes de gastar todos os recursos disponíveis, todo o acúmulo de que uma vida de trabalho é capaz de guardar, vale mais alguns meses, dias e horas de vida. Inventamos equipamentos capazes de respirar por nós, quando todos os nossos órgãos estão praticamente mortos. Tudo pelo único e simples “fetiche” que temos pela sobrevida. Ou pelo medo do desconhecido...


Medo esse, capaz de nos fazer valorizar muito mais as pessoas que estão próximas da morte, do que fomos capazes de valorizá-las durante todo seu período de vida. É comum, por exemplo, que a família passe a dar mais atenção aos seus idosos próximos da morte, além daquela estranha tradição de chamar parentes que não viam aquela pessoa há décadas, para que possam dar o, importantíssimo, último adeus.


Antigos artistas que passaram meses e anos à míngua, sem apoio, sem doação, sem trabalho, mas que, quando morrem, recebem das mais caras homenagens; tem aquele funcionário mal pago e pouco reconhecido, mas que na hora da morte é largamente homenageado pelos empregadores. Existe uma certa disputa póstuma, quanto maior a empresa, ou quanto mais consternada quiser parecer, a pessoa que envia, maior e mais cara tem que ser a coroa de flores, é quase como um espaço de marketing funerário.


Depois de milênios de evolução, os seres humanos ainda se fascinam com a mesma intensidade que temem a morte. Sobre esse momento do término da vida existem lendas, dogmas, teses sobrenaturais. Afinal, há outra vida? Há outra dimensão? Existe uma passagem? Existe alma? É o fim ou o recomeço? Como evitá-la? Como viver mais? Quanto queremos viver? E quando queremos morrer? Teremos uma morte simples, natural, indolor e poética durante o sono, ou sofreremos nossos piores momentos antes do descanso eterno?


Caixões brilhantes, madeiras de lei, placas de mármore, mausoléus imponentes, uma vaidade imortal. Na história, a morte sempre foi mais protagonista do que a vida. Mortes foram capazes de consternar e mudar o mundo. Guerras cujo o objetivo era apenas a morte do inimigo, seja pela conquista de um reino, ou pelo roubo de propriedades, foram armadas a custos altíssimos, enquanto muitos desses reinos mantinham a população camponesa em grandes dificuldades. Os maiores investimentos sempre foram na direção da morte, seja para conhecê-la, entende-la, evita-la ou, simplesmente, para promove-la.


Nos tempos atuais, no mundo das redes sociais e raciocínios curtos, no tempo dos influencers e do comportamento de manada, quem é o cruel e insensível que não lamenta a morte de famosos?


Veja bem: Não é um questionamento moral, é uma constatação do comportamento social. Somos uma sociedade que aplaude e exalta os mortos, de costas para os vivos que só morrerão amanhã.


Esse é um ponto polêmico da nossa existência que talvez no futuro possamos resolver, um paradoxo de uma sociedade que quer viver, mas está mais disposta a investir na morte, do que na vida.


Ao longo dos últimos séculos muito evoluímos nesse ponto, mas ainda valorizamos a morte como nenhum outro ser. Nenhum dos grandes esforços da humanidade para dar vida eterna aos seus exemplares mais excepcionais foi bem-sucedido. Todos apodreceram ao seu modo, nenhuma evidência há sobre o que vem depois (nem se vem algo depois) da vida. A nós, meros mortais só resta esperar o momento da nossa morte chegar, aliás, chegada essa que é a única certeza plena que temos sobre a morte. Demore mais, ou, demore menos, ela sempre chega para interromper nossa vida de prazeres, vícios e deliciosos pecados que todos desejam, mas nem todos podem ter.

Sim, porque embora tenha se convencionado chamar a vida de “dádiva divina”, para centenas de milhões de pessoas que vivem na mais absoluta miséria, com desnutrição, sem empregos, sem terra para plantar, sem acesso a água potável e nas piores condições sanitárias imagináveis, não há dádiva, não há poesia e nem perspectiva de melhora. Para esses, nem coroas de flores haverá quando a hora de “partir” chegar.


Lamentemos pela extraordinária atriz Eva Wilma e todo o legado deixado, lamentemos pelo ex-prefeito Bruno Covas, ambos acometidos por uma doença ainda sem cura e que ainda não sabemos ao certo como evitar; lamentemos muito por aquelas mais de 400 mil mortes, dentre elas a de Paulo Gustavo, que poderiam ter sido evitadas, se não fosse pela omissão dos governantes de todas as esferas de poder, que se negaram a adotar o, comprovadamente eficaz, lockdown...


...mas, principalmente, lamentemos e nos mobilizemos por aqueles que, vivos, estão condenados à uma vida longe dos prazeres, dos confortos, dos acessos e da dignidade a qual todo ser humano deveria ter acesso. Que essas vidas sejam capazes de nos comover e nos mobilizar, tanto quanto a morte de pessoas famosas comovem e mobilizam.


Música "Canto para Minha Morte - Raul Seixas e Paulo Coelho.