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O Rio de Janeiro continua aquele...

O Rio de Janeiro vive refém da facção mais violenta do Brasil, a polícia carioca.

Foto: Fabiano Rocha | Reprodução: Voz das Comunidades

O Rio de janeiro já não é lindo há muito tempo. O Rio de Janeiro só continua lindo se for olhado de longe, se for visto apenas pela sua formação geográfica ímpar, capaz de elevar seus cartões postais a pontos tão altos que nem toda a pobreza, miséria, desigualdade, corrupção e covardia policial, são capazes de ofuscar.


Em 2008 tive a oportunidade de passar um mês na cidade “Maravilhosa”. Talvez eu tenha ido com as expectativas altas demais. Eu tinha ouvido falar do Rio dos tempos de Dondon no Andaraí, Rio de Madureira, o lugar de Arlindo; do Rio do Rei Zeca, lá em Xerém; Rio do Cacique de Ramos, da Lapa, da boemia e do samba. Tudo que eu encontrei foi um Rio da desigualdade, do contraste entre a vazia e higienizada Getúlio Vargas com a movimentação sujeira e pobreza da avenida Rio Branco, um Rio de Janeiro em que o cidadão tinha mais medo de voltar para casa e encontrar uma operação policial, do que ser assaltado no ônibus, já que no ônibus as vidas eram poupadas em troca de celular e no Morro, nas ações desastradas da polícia, as vidas eram roubadas em troca de medalhas.


O Rio de Janeiro deve ter sido muito lindo mesmo, uma visita ao Salgueiro prova que ali existem pessoas lindas, pessoas vibrantes, inteligentes, que querem respeito e, talvez por isso, na quadra da escola, em um clima comunitário as pessoas se sentissem tão à vontade e felizes, como se lá fora todos os problemas não os esperasse.


De lá para cá não tem como ter melhorado. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) foram instaladas, viraram a base das milícias, unidades que expulsaram os negros que vendiam drogas para, no lugar, colocarem os brancos fardados que vendem drogas, gás, luz, internet, tv a cabo e execuções para quem puder pagar...


A polícia do Rio de Janeiro nunca quis combater o crime. Pelo contrário, em seus horários de folga os policiais se prestam a trabalhar fazendo a segurança de gente de toda sorte, de baladas a casas de prostituição e chefes do jogo do bicho. Mas repare, eu disse que a polícia do Rio sempre se propôs a defender pessoas de toda sorte, o que, por óbvio, não inclui pobres, negros e favelados, já que, embora se venda a ideia de que a vida é uma sorte, uma dádiva, não há sorte possível a essas pessoas, não há sorte que as alcance, infelizmente são pessoas de pouca ou nenhuma sorte, que a qualquer momento podem ser assassinadas pela próxima chacina promovida pela polícia. Chacinas essas como a de Jacarezinho com execuções dentro da casa dos moradores, de pessoas desarmadas, chacina que matou um jovem desarmado, que não se levantou para morrer, foi covardemente executado pela polícia que mais próxima está de ser milícia que executa e bagunça a cena do crime, para evitar perícias.


O Rio de janeiro continua aquele da sede do império, aquele do império escravagista com ódio de pobres e negros, aquele Rio do “delegado Chico Palha” que oprimia, batia, acabava com o samba a pau e ainda quebrava os instrumentos. O Rio de janeiro continua aquele da guarda do império, da guarda feita para capturar, torturar e matar os negros; o Rio de Janeiro segue sendo aquele que perdeu o Estado quando perdeu a capital, que abandou os cidadãos a própria sorte – que como já dito, não há – sobrevivendo a investidas criminosas e cotidianas da polícia que, à força de bala, quer apagar as favelas da paisagem, querem acabar com os pobres e negros, cuja pele contrasta demais com a cor da areia e do cabelo das madames, deixando os homens inseguros por causa de suas “picas enormes” e seus “sacos de granadas”...


O Rio de Janeiro continua sendo aquele da polícia covarde que atira do alto dos helicópteros em escolas, que extermina crianças pobres com tiros na cabeça como foi com a Ágatha Felix (8 anos), da polícia que mata gente inocente pelas costas, como fez com João Pedro (14 anos), da polícia que mata pelas costas o Dyogo de Brito (16 anos) enquanto ia com sua chuteira para um treino de futebol; da polícia que EXECUTA Jhonata Alves (16 anos) com um tiro na cabeça, porque confundiram um saco de pipoca com drogas; da polícia que assassina covardemente o garçom Rodrigo Alexandre Silva Serrano no ponto de ônibus enquanto esperava sua mulher e sua filha chegarem em um dia chuvoso, por confundirem um guarda chuva com um fuzil; da polícia que assassina porque confunde a furadeira de Helio Ribeiro, com uma arma e o mata enquanto consertava o telhado da própria casa; o Rio de Janeiro continua aquele do policial que, covardemente, matou a professora Geisa Firmo Gonçalves, feita de refém por um jovem transtornado e que, para completar a covardia, matou o jovem já rendido dentro de uma viatura.


O Rio de Janeiro continua aquele que depois de 3 anos ainda não descobriu QUEM MANDOU MATAR MARIELLE FRANCO(?); O Rio de Janeiro das mazelas, o Rio de Janeiro da Candelária, das chacinas, das execuções, do escritório do crime (curiosamente formado por policiais e ex-policiais). O Rio de Janeiro que não prendeu ninguém pelo assassinato dos 10 garotos no centro de treinamento do Flamengo, afinal, para que prender se o que o clube fez, foi o que a polícia faz todos os dias. Mataram pretos e pobres.


O Rio de janeiro continua sendo aquele da polícia mais covarde e mais imoral do mundo. Continua sendo aquele da polícia aliada de criminosos que podem pagar seus “extras”... O Rio de Janeiro continua sendo o lugar onde o rico tem nojo do pobre, onde o Estado extermina pobres para satisfazer os caprichos da elite rica, velha, mofada e fedorenta do Rio de Janeiro.


O Rio de Janeiro continua aquele que oprime, esconde e mata seus negros no Morro, aquele que nega para sua população a dignidade e o respeito, continua sendo aquele da precariedade, da falta de oportunidade, aquele da semiescravidão dos quartinhos de empregadas.


Os cariocas que me desculpem, mas só um bairrismo infantil e inconsequente seria capaz de discordar disso. O Rio De Janeiro têm uns quadradinhos lindos, mas continua aquele... Talvez para os brancos não, mas para os “pobres de tão pretos e pretos de tão pobres” ... O Rio de Janeiro continua aquele.


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