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Especulação é o gatilho dos grandes desastres econômicos

A financeirização da economia já vem causando problemas há tempos e ao que tudo indica, o mercado financeiro causará mais problemas em breve.

Foto: Movimento Extinction Rebellion protestou para denunciar as mudanças climáticas no planeta

Há mais de 98% de chances de você, que nos lê, ser pobre. Ou trocando em miúdos, de você ser uma pessoa sem acúmulo de bens, com necessidade de trabalhar esse mês, para não passar necessidades, nem dificuldades nos próximos três meses.


A princípio, insinuar que herdeiros são ”bon vivants” como fiz na minha primeira coluna exclusiva para a Dossiê etc e agora ler que ter aplicação na bolsa de valores é oportunismo pode fazer com que pessoas como eu e você, tendam a discordar dessa afirmação, afinal, herdar uma casinha, um carro velho, uma caderneta de poupança e alguns objetos de gaveta é absolutamente comum, basta um parente próximo morrer para que isso aconteça. Mas não é disso que estou falando, estou falando de heranças mi e bilionárias, montantes capazes de garantir que uma geração ou mais, passe a vida inteira sem trabalhar. Por isso, tenho 99% de certeza que esse não é seu caso, porque esse é um privilégio para poucos; e para que não pareça um jogo de palavras qualquer, o sentido clássico de oportunismo, segundo o dicionário Michaelis online é: “Habilidade em aproveitar os fatos ou circunstâncias para obter algo”. Nesse caso, é a habilidade de aproveitar o patrimônio constituído por seus antepassado para ter o que, seguramente, podemos chamar de vida mansa.


Ainda com essa explicação, pode ser que trabalhadores e cidadãos comuns, com algumas ações do Banco do Brasil, Vale, Petrobrás etc. Se sintam ofendidos com o termo, oportunismo, mas com certeza não estou falando desses poucos e pequenos investidores, estou falando praticamente das mesmas pessoas que nasceram tão ricas, que sequer precisam trabalhar durante sua vida, embora a maioria sente na cadeira de presidente das empresas herdadas, porque dizem que não trabalhar “pega mal”, mas na realidade só precisam de um lugar de especulação financeira onde possa multiplicar seu dinheiro sem pagar impostos, aportando sua herança em alguns fundos que agem como “cambistas” de ações, movimentando-as buscando a valorização, mesmo que por meios especulativos de compras e vendas constantes, fazendo com que esse dinheiro se “multiplique” sem ajudar as empresas das quais essas ações dizem respeito, já que apenas no momento da emissão dos papeis é que o dinheiro da compra de uma ação vai para a mão das empresas.


Investidores ou Cambistas?


Vai soar estranha essa definição que eu vou expor aqui sobre o mercado financeiro, mas observe que há semelhanças profundas entre as posições comparadas. E isso soará estranho no início, porque muito se fala sobre o humor do Mercado e sobre as variações da bolsa. Mas muito pouco se fala sobre como essas coisas acontecem.


Quando ações de uma empresa são negociadas na bolsa, os primeiros compradores geralmente são fundos bi ou trilionários que negociam lotes gigantescos de ações durante o processo de oferta pública inicial de ações (IPO), esses fundos agem de forma bem parecida com os cambistas que compravam e/ou desviavam lotes de ingressos que deveriam ser vendidos em bilheterias. Se você não era habituado a ir aos estádios de futebol nos anos 90 e 2000, talvez tenha dificuldades em entender essa comparação, mas, basicamente, funcionava assim: Os cambistas compravam grandes lotes de ingressos até acabarem com todos, ou pelo menos com os ingressos mais populares, os de arquibancadas. Feito isso, a demanda passa a ser, automaticamente, maior do que a oferta, que na prática chega a zero quando acabam os ingressos. Nesse momento, apenas os cambistas possuem o ingresso, se você quiser ver aquele jogo ou evento importante, é desses cambistas que você tem que comprar. Com esse movimento os cambistas manipulam artificialmente os preços dos ingressos, lesando os torcedores que pagam valores 3, 4, 5 e até 100 vezes maiores, a depender da importância do evento.


Os bancos e grandes fundos fazem isso, compram lotes imensos de ações de empresas que têm uma tinta promissora, mas na prática, muitas delas nunca deram lucros e terão poucas chances de ter esses lucros consolidados. Ainda assim, como são muito grandes, com grandes aportes desses fundos especulativos, acabam se tornando atraentes suficientes para fazerem fundos menores e pequenos investidores acreditarem e buscarem essas ações que, a essa altura, já estão nas mãos dos bancos e fundos, sendo repassadas a todo vapor com valores inflados pela busca do mercado, tentando passar tudo aquilo para o que no jargão financeiro, chamam de the Greater Fool, “O TOLO MAIOR” em português. Esse termo é designado para se referir ao investidor que detém as ações de uma empresa no momento em que ela quebrar, ou for liquidada, como aconteceu com a NetShoes, que ofertou ações na bolsa de Nova York em 12 de abril de 2017 por US$ 18 cada ação, mas a empresa foi liquidada por US$ 3,70 por cada ação para a Magazine Luiza em junho de 2019, um prejuízo de 80% para os que arriscaram compras as ações da Netshoes apenas 2 anos antes. Bom negócio para a Magalu, que tem suas ações valorizadas, apenas por esse ato de aquisição bem-sucedido, isso tudo, antes mesmo de o “Mercado” saber se a empresa seria capaz de resgatar ou não a Netshoes e transformá-la em algo rentável, ou se vão apenas dar uma morte digna para à gigante dos calçados.


Aliás, há um aspecto interessante nessa compra, porque compras de empresas não devem ser condenadas, sociedades em empresas também não, afinal, investimentos como o da Magalu visam ganho operacional, ou conquista de um nicho de mercado, diferente dos bancos e fundos de investimentos que administram o dinheiro dos “herdeiros preguiçosos”. Esses fundos só querem especular e ganhar dinheiro com a venda da empresa antes que ela quebre, não há real preocupação com a saúde da empresa, porque como são os primeiros compradores, à preços baixos, normalmente há espaço para valorização (especulativa e orgânica) antes de venderem suas ações todas, garantindo um lucro praticamente certo. O que vai acontecer com a empresa dali para frente não é problema deles. Já o grupo Magalu comprou o risco, comprou integralmente a empresa e vai se virar com recursos próprios torná-la viável, o que é muito bom, porque volta a focar a operação e valorização ligada a produtividade e não em especulação de preços de ações.


Boa parte desses problemas de natureza especulativas se dão, porque hoje não há regulamentos rígidos sobre um tempo mínimo de posse das ações, ou seja, você pode comprar e vender ações ou cotas correspondentes a essas ações várias vezes ao dia, por exemplo. Prática essa conhecida por Day trade que vem sendo duramente criticada até por operadores do mercado financeiro por deixar o sistema vulnerável a especulações críticas que desorientam o mercado financeiro e as autoridades econômicas do país. Um risco especial para as sociedades como os EUA, onde boa parte da aposentadoria de idosos depende do rendimento dos chamados fundo de pensão. Se esses fundos quebram, centenas de milhares de pessoas podem ir, repentinamente, à falência pessoal. Na prática podem deixar de receber suas aposentadoras.


A título de exemplo, Elon Musk comprovou a teoria de que o mercado financeiro é altamente suscetível a especulações e interferências externas. Em janeiro ele tweetou o link de um fórum que organizava um movimento coordenado de compra de ações para manipulação dos preços. As ações em questão eram de uma tradicional loja de consoles, jogos e artigos para gamers. A loja em questão, a Gamestop, já foi uma febre nos EUA, mas com as novas tecnologias e o crescimento dos jogos online e compra de jogos através de mídias digitais entregues por downloads, a loja, que teve como uma das suas principais fontes de receita a venda de jogos, estava fadada a falência, ou a uma redução drástica de tamanho que já vinha acontecendo gradativamente.

Após o tweet de Musk, as ações da empresa chegaram a subir mais de 150%. Entretanto, embora possa parecer um ato de caridade a favor de um empresário à beira da falência - como se a bolsa de valores aceitasse pequenos comércios – é na verde uma ação que para favorecer a empresa, precisaria que as ações estivessem nas mãos da empresa, mas o que aconteceu não foi isso. Um grupo de pequenos investidores, organizados através de um fórum na internet, começou a fazer opções de compras. Os fundos por sua vez venderam suas ações. Agora essas ações valorizadas artificialmente estão nas mãos de pequenos investidores que se começarem a realizar as vendas, verão o preço dos ativos despencarem, mas por outro lado, se segurarem por muito tempo e as projeções estiverem certas, poderão perder o dinheiro que investiram nessa manobra. Muitas pessoas ganharam dinheiro com essa súbita disparada do preço das ações, para isso, muitas outras perderam ou perderão. Já para a empresa, foi só mais um dia como outro qualquer.


Musk na verdade foi só um publicitário do fórum da Reddit Wallstreetbets que organiza essas movimentações em massa que claramente deturpam os valores de mercado dos ativos. No gráfico abaixo é possível notar que a empresa Gamestop vinha mantendo certa estabilidade no valor das ações, até ser artificialmente infladas por esse esquema:

Evolução do valor das ações da Gamestop

Caso GAMESTOP ponto a ponto:


1) – Até dia 12 de janeiro, em longa estabilidade, as ações da empresa GAMESTOP valiam US$ 19,95;


2) – Conforme a experiência proposta no fórum ganha aderência, o valor das ações começa a subir. Cada dia de alta empolga mais investidores e a notícia começa a circular, até chegar a uma valorização de 642% em 14 dias, uma evolução significativa;


3) – Com a divulgação de Musk, o valor das ações cresceu mais 135% em apenas um pregão, levando a uma valorização total de 1642% em relação ao dia 12 de janeiro, último dia de “normalidade” nas ações da empresa. Na prática, se quem criou esse movimento investiu US$ 1.000 antes do dia 12 de janeiro, até o dia 28 teria tido um lucro de US$ 16 mil dólares, aproximadamente noventa mil reais;


4) – Em 28 de janeiro as ações deram o primeiro susto naqueles que entraram tardiamente. Seu valor despencou 44%. Essa queda provavelmente se deu pela realização dos lucros daqueles que acreditavam que a aventura tinha chegado ao seu limite


5) - Em 29 de janeiro o valor das ações teve nova alta, mas essa nova alta provavelmente se deve a duas coisas.


A) Pessoas que tiveram acesso tardio a repercussão dessa movimentação e tentaram tirar mais uma casquinha;


B) Fundos que operam a descoberto, provavelmente vira na queda do dia 28 uma oportunidade para comprar parte das ações com o aluguel prestes a vencer (explicamos abaixo), uma forma de diluir o risco, já que diferente da aposta de quem vende a descoberto, ou aluga ações, as ações estavam se valorizando;


Vendas a descoberto, problemas para alguns e racionalidade para outros


Vendas a descoberto ou aluguel de ações é uma operação bem conhecida e polêmica, principalmente pelas consequências possíveis. O funcionamento é relativamente simples:

Ao avaliar os resultados das empresas e outros tantos dados econômicos, pode perceber que determinada ação está provavelmente supervalorizada, ou prestes a se desvalorizar por algum acontecimento de natureza diversa (política, econômica, mercadológica, logística etc). Então apostando em uma queda do valor dessas ações, o fundo aluga as ações por um determinado período. Por esse aluguel ele garante uma rentabilidade mínima sobre o valor das ações para os donos originais dessas ações, por exemplo, 1% ao mês ou x% ao ano, até que ele devolva as ações;


O fundo então pega essas ações e vende, mesmo sabendo que elas não são dele. A ideia é que, apostando na queda das ações, o fundo venda pelo preço atual – considerado acima do que deveria custar – e recompre no futuro, quando tiver que devolver as ações; É exatamente essa diferença esperada no preço das ações, que garante o lucro da operação:


Exemplo: O fundo “A” aluga 1 milhão de ações XYZ do fundo “B” quando as ações valem R$ 1,00; Vende essas ações e levanta 1 milhão em capital; Se daqui um ano, no tempo de devolver as ações alugadas, essas ações estiverem custando R$ 0,30, então o lucro da operação terá sido os R$ 0,70 de diferença por ação; se na hora de devolver o valor das ações estiver R$ 2,00, então o fundo “A” que precisa devolver aquele montante de ações, precisa tirar do bolso para completar esses R$ 1,00 a mais por ação. Veja no Exemplo 01.

Exemplo 01: Operação de venda a descoberto (bem sucedida)

É uma aposta. Se as ações se desvalorizarem, quem vendeu a descoberto ganham dinheiro, porém, se as ações se valorizarem então a empresa que vendeu a descoberto pode inclusive quebrar por ter que desembolsar valores para cobrir a diferença e provavelmente isso aconteceu ou acontecerá com alguns fundos que ainda não compraram as ações a serem devolvidas para os locatários das ações. Conforme Exemplo 02.

Exemplo 02: Mostra uma operação de venda a descoberto, mal sucedida.

As possibilidades no mercado financeiro são muito grandes e quanto menos regulado o mercado for, maiores as possibilidades de fraudes e colapsos como as sazonais crises causadas por empresas estadunidenses pessimamente fiscalizadas e ridiculamente desreguladas. Voltando para os exemplos acima, apesar de toda essa confusão envolvendo os fundos que operam a descoberto e um bando de pequenos investidores deslumbrados com as possibilidades de lucro da especulação financeira, é possível que nada tenha acontecido com a empresa às quais as ações se referem, Gamestop, isso porque essa empresa emitiu essas ações há muitos anos, já recebeu por elas o que tinha direito e d´ali em diante ela luta para sobreviver enquanto os investidores da bolsa brincam de “clonar dinheiro”. Sim, "clonar", porque dinheiro não se reproduz e como vimos aqui, essa movimentação de papel para lá e para cá não produz nada, nem um prego. Ou estão clonando dinheiro, ou, como normalmente se refere a isso, o mercado está inflando aqueles ativos.


Definitivamente, o valor das ações não é baseado na robustez das operações das empresas, mas sim em uma expectativa de demanda e, hoje, até por uma expectativa de “monopólio”, dadas as dificuldades que alguns modelos de negócios ainda encontram em concorrer no mercado. Prova disso é a facilidade que um fórum da internet, manipular os valores de ações no mercado mais famoso do mundo. Ficou demonstrado por A + B que se um grande volume de ações for comprado ou vendido, mesmo sem ninguém saber o motivo disso, o valor dessa empresa sofre alterações bruscas; É um comportamento de manada que mexe com percepções a respeito de determinado ativo, aumentando ou diminuindo o interesse por esse ativo.


Se de um lado o Mercado se alegra com a possibilidade de enriquecimento repentino até quando uma empresa quebra, por outro, os críticos dessa prática acusam esses fundos de lucrarem com a falência de empresas e de causa grandes perdas para aqueles que locam suas ações. Isso porque em uma eventual queda brusca, ou sinais claros de falência de uma empresa, o investidor pode se desfazer gradativamente de suas ações, evitando perdas maiores, porém, se as ações estiverem alugadas, não há o que fazer a não ser calcular as perdas.


A verdade é que no mercado de ações, sempre há um "tolo maior" disposto a apostar.


A especulação financeira precisa ficar para trás:


Apesar de hoje os exemplos dessa manipulação artificial do valores de ativos, serem muito mais evidentes e explícitos, isso sempre aconteceu. Porém, agora isso não pode mais ser aceito, por um motivo simples, o mundo vive a era da informação e comunicação. Com as tecnologias que temos hoje, é completamente possível que grupos se orquestrem por meio da internet para repetirem o caso da GameStop com qualquer empresa e com esses movimentos induzirem todo um mercado ao erro.


Essa é uma prática previsível, que durante a história foram denunciadas, mas sempre ignorada pelos órgãos reguladores, já que antigamente as reuniões de capital capaz de manipular o Mercado só poderiam acontecer a portas fechadas em palácios, impossíveis de serem comprovadas. Agora está sendo reproduzida em escalas cada vez maiores e por consequência, os estragos deve se dar cada vez em proporções maiores.


Para coibir esse tipo de comportamento nocivo para toda a economia, uma regra razoável deveria ser o tempo de permanência mínimo que um investidor precisa ficar com uma ação ou cotas correspondentes a uma ação. Porque somente se o investidor for obrigado a permanecer com um papel durante 1 ano, é que ele vai pensar como investidor e desejar o melhor funcionamento econômico possível, evitando riscos que podem colocar a economia em risco. Outra medida interessante seria o repasse de um percentual das negociações para as empresas que emitiram as ações, tal qual é a regra de 5% de comissão para o clube formador de jogadores que são negociados, além de, é claro taxar o lucros e dividendos, obrigando as corretoras a reterem o imposto durante a operação de venda das ações. Em pleno século XXI, não se pode aceitar que qualquer especulação que não gera valor nem para a empresa, nem para o Estado, seja confundida com investimento.


Bolhas e golpes financeiros: Coisas diferentes com resultados iguais


Em 2016 o criptoativo Bitcoin era avaliada em pouco menos USD 530 (dólares). Hoje, apenas 5 anos depois esse ativo já se valorizou 10.902%, ou 109x, chegando US 57.800 a despeito de qualquer ativo. Não existe paralelo, não existe empresa que tenha crescido tanto, não houve aumento considerável de empresas aceitando bitcoins como meios de pagamento. Enfim, não há justificativa. A única justificativa é que quanto mais gente entra mais o valor da bitcoin sobe, mas sem lastro, é uma enorme bolha de ar. Reflita: Alguém comprou 2 biticoins com 1000 USD há 5 anos atrás, deitou no sofá e 5 anos depois seus USD 1.000 viraram USD 100 mil. Tem um vácuo de USD 99 mil, que não foi preenchido por quem entrou depois, porque quem entrou depois também já viu essa bolha crescer e tem mais do que quando entrou, o vácuo aumentou. Se hoje, 10% de todas as bitcoins fossem sacadas em dólares, de onde sairia esse dinheiro? A resposta é que a bolha estouraria e esse castelo de cartas desmoronaria causando prejuízos, provavelmente, muito maiores do que USD 70 bilhões deixados por Bernie Madoff, um dos maiores banqueiros de Wall Street, que operou uma pirâmide financeira que durou 50 anos bem no centro do maior mercado financeiro do mundo, bem embaixo das autoridades estadunidenses, no coração de Manhattan. A pirâmide caiu em 2008 quando investidores tentaram sacar USD 7 bilhões das ações que acreditavam. Sem liquidez para tal, a pirâmide de Madoff desmoronou.


Todos os sinais indicam que estamos alimentando uma gigantesca bolha financeira “multimodal”. Ou seja, não é apenas uma bolha imobiliária como foi nos EUA em 2008, onde políticas de crédito mal construídas permitiram uma hiper especulação imobiliária. Os donos de imóveis – Grande parte pertencente aos bancos e fundos que tomavam as casas dos inadimplentes – acreditavam que poderiam cobrar por esse imóvel o valor que quisessem, porque a desregulação do crédito fazia com que qualquer cidadão assumisse hipotecas muito grandes, muitas vezes incompatíveis com a renda ou a estabilidade profissional que tinham em um país onde as leis trabalhistas também não são um bom exemplo a ser seguido. A crença era que o cidadão perdia a vida antes de deixar de pagar a hipoteca, infelizmente isso era verdade. Muitas pessoas foram levadas ao suicídio durante a crise financeira de 2008 e 2009.


O resultado todo mundo já sabe, vivemos em 2008 / 2009 a maior crise econômica mundial, desde a quebra de 1929, quando a Bolsa dos EUA também quebrou causando o que muitos consideram ser a maior crise econômica da história com custos que se aproximam dos custos das grandes guerras. Na ocasião, foi uma bolha produtiva que gerou a grande quebra.

No período pós 1ª Guerra, os EUA viram a oportunidade de vender alimentos e itens industriais para os países Europeus que estavam devastados pela guerra, ao passo que o solo estadunidense nada tinha sofrido. Porém, com dinheiro sobrando, consumo em alta e crédito desregulado, os EUA se industrializou agressivamente, todos passaram a produzir sem nenhuma disciplina ou regulação e isso fez com que a capacidade produtiva superasse em muito a demanda e a capacidade do mercado internacional de absorver tamanha produção. O resultado foi óbvio, empresas estadunidenses quebraram com estoques lotados, sem ter para quem vender e, portanto, sem poderem honrar com as dívidas contraídas. logo, a bolsa, um aparato de especulação e que, portanto, costuma “chutar” para cima as projeções, derreteu feito gelo no Saara e o país foi a lona com a inadimplência em massa.


Bom, se todas as bolhas têm uma origem, a bolha multimodal, como o nome diz, pode ter várias origens. É como se uma bexiga tivesse várias entradas de ar. Ela vai encher rápido, a quantidade de látex será sempre a mesma, o resto é “ar”...


Com a pandemia e a adesão em massa da prática de trabalhar em casa (ou homeoffice para os íntimos) muito se fala em bolha imobiliária, mas entre os imóveis comerciais, o que em último caso pode gerar a conversão de alguns prédios comerciais em prédios residenciais e isso poderia resfriar os preços de imóveis residenciais que estão sofrendo forte especulação e ocupando um espaço cada vez maior da renda do brasileiro. Pelo mesmo motivo, a prática de trabalhar de casa, grandes cidades do mundo conhecidos por serem polos de postos de trabalho, podem sofrer não só com a grande ociosidade dos imóveis comerciais, mas também com o êxodo de trabalhadores indo morar no interior do país em busca de qualidade de vida e aluguéis mais baratos.



Nouriel Roubini, professor da escola de negócios da Universidade de Nova Iorque, um dos primeiros a prever a crise de 2008 começa a alertar sobre uma nova bolha, dessa vez a bolha de alavancagem. Segundo ele, os juros baixos encorajaram as empresas que se alavancaram com esse crédito barato, buscando potencializar o lucro, mas que talvez não consigam crescer tanto quanto for necessário para honrar com alguns dos riscos assumidos e isso pode gerar um momento de tensão no mercado, com a quebra de muitas empresas.



Roubini é um especialista, mas basta ser um bom observador para perceber há algo de muito estranho no ar. A Ibovespa demorou 3 anos para chegar dos 65 aos 118 mil pontos, a pandemia chegou e a bolsa caiu, de fevereiro para março de 2020 recuou 40% até os 67 mil pontos de novo e motivos para justificar essa queda não faltam, a pandemia aumentou o desemprego, aumentou a fome, isolou as pessoas, reduziu a massa de renda nacional, aumentou o endividamento das empresas e do país, reduziu o faturamento de quase todos os segmentos econômicos e não tem previsão para acabar. O estranho mesmo, é que mesmo assim, apenas um ano depois e durante o pior momento da pandemia, a Ibovespa já retornou aos índices pré-pandemia com seus 118 mil pontos. Parece que um compressor de ar está soprando essa bolha. Será? Será que tem liquidez nesses 118 mil pontos? Quem viver verá.


Leia Dossiê!

Cotação Ibovespa em 08 de abril de 2021